Finalmente temos o terceiro – supostamente, era pra ser o último – capítulo da saga de John Wick. O personagem, de Keanu Reeves, já esteve preso em sua história a 3 filmes, lutando incessantemente contra diversas gangues de máfias e assassinos de aluguel, de início pela  vingança a seu cachorro, presente de sua falecida esposa, que foi assassinado, levando Wick a desencadear a enorme e incessante corrente de ciclos de vinganças que vemos no presente.

O resultado é simples, porém inevitável: Wick chega a assassinar um dos “lordes da máfia russa”, Santino D’Antonio, em solo do Continental (o hotel da rede de criminosos profissionais do universo do filme). Tal ação é considerada crime, já que o Continental é muito mais que um simples hotel para eles, quase como seus santuários seguros. Em John Wick 3, vemos a história desenvolver e expandir cada vez mais o infinito horizonte do crime organizado de Nova York.

O filme não perde tempo para resumir de onde parou em John Wick 2: ao assassinar Santino, Winston, o gerente do Continental, declara Wick como excomungado. Ele se torna um foragido, e não poderá ter serviços como armas, coletes especiais, ou auxílio de qualquer funcionário do hotel, e com um detalhe: uma recompensa de 15 milhões de dólares por sua cabeça. Assim, o filme nos mostra que John Wick está para enfrentar seu maior inimigo, que seria, basicamente, todas as centenas de pessoas que querem o dinheiro, custe o que custar.

Logo de início, temos um combate nos primeiros 5 minutos, trazendo acima de tudo uma imagem exausta e depressiva do protagonista, que se encontra no limite de sua capacidade física. Mesmo assim, o filme passa impressionantes duas horas sem parar por no mínimo 5 minutos, sempre com um tiroteio atrás do outro (e isso NÃO É exagero, falarei mais sobre à frente).

Basicamente, a cena de abertura do filme é de nosso protagonista realizando a “proeza do lápis”, mas desta vez com um livro, e contra um homem de quase 3 metros de altura. E sim, a cena é excessivamente brutal. Aos poucos, o filme estabelece novos aliados, como Sofia, gerente do Continental de Marrocos, e a Advogada, representante da High Table, que seria o órgão mais alto da organização de crimes; assim como reestabelece antigos aliados, como Winston, gerente do Continental, e Charon, porteiro do hotel.

Ao longo da trama, Wick revela que apenas continua lutando para poder sempre se lembrar dos bons momentos que teve com sua falecida amada, Helen. Ele se encontra com antigos aliados, cobra dívidas, e faz novos inimigos também, sem contar no surgimento da nova máfia japonesa em um estilo Yakuza extremamente exagerado, com eles LITERALMENTE sumindo nas sombras e sendo extraordinários em eficácia de eliminações silenciosas, literalmente se misturando aos cenários e assustando os espectadores a cada vez que brotam das sombras, com uma cooperação a um nível que qualquer um sonharia alcançar em Ghost Recon. Uma adição fascinante e muito bem elaborada, devo admitir.

John Wick 3 é, com certeza, um dos melhores filmes da história do cinema no gênero de ação, se você os comparar na perspectiva de suas qualidades de gravação. A câmera consegue capturar muito bem perspectivas de personagens, se adaptando a velocidade do combate de forma fluida e consistente. Em especial, o filme, dirigido por Chad Stahelski, excede no quesito de fluidez, sempre mantendo longas cenas sem cortes excessivos e desnecessários, característicos de filmes de ação genéricos. Enquanto isso, no completo contrário do espectro, temos filmes de ação estúpidos como o que é a “cena da cerca” com o ator Liam Neeson em Busca Implacável 3, com o diretor Olivier Megaton mandando fazer 15 CORTES PARA UMA CENA DE PULAR UMA CERCA.

O filme chega até a explorar melhor o quesito de versatilidade em combate corpo-a-corpo, com foco em jogar coisas na cara dos outros (armas sem munição, machados, facas, etc.), utilização de mais armas brancas, e na exploração de “perigos de ambiente”, como quando Wick entra em um estábulo e bate na bunda de um cavalo, assim ele dá um coice na cara de um dos criminosos que querem o matar. É uma jogada esperta, tomando o balanço mais pro lado do combate à curta distância do que pro lado “armas explosivas e helicópteros com metralhadoras gigantes”, algo que muitos filmes de ação costumam tomar (Velozes e Furiosos é um bom exemplo disso).

Aqui entramos no último ponto (pelo menos o que vale ser citado em uma análise), que é o ritmo da história. “O que tem de errado com isso?”, você deve se perguntar. Te respondo com o maior prazer: O FILME É MUITO CANSATIVO E NÃO FICA 5 MINUTOS SEM TIROTEIO NA TELA.

A franquia de John Wick é, sem sombra de dúvida, excepcional em inovação de combate corpo-a-corpo coreografado, excedendo muitos outros e mantendo a forma de Keanu desde suas épocas de Matrix. Além disso, devemos sempre ressaltar a forma como possui uma gravação consistente (ou, vulgo, “dá pra ver alguma coisa e não ficar com dor de cabeça”), ao contrário da cerca infernal que exemplifiquei ali em cima.

Porém, não é porque temos bons atores, um cenário relativamente bonito, ótima coreografia e efeitos visuais e sonoros consistentes que podemos pecar pro excessivo. Com a trama interminável e cada vez mais expandida deste universo de criminosos altamente armados, fica muito maior a quantidade de mafiosos, militares, assassinos de aluguel e lordes da guerra querendo a cabeça de nosso querido protagonista num prato frio. E é por isso mesmo que eu (e meu amigo Gustavo Brito, deste mesmo site), notamos uma coisa: talvez um filme de ação de “um-cara-contra-o-mundo” seja um pouco exagerado pra uma história consistente, até mesmo pra uma equipe talentosa como essa.

Para explicar melhor o que deveria ser feito, ao meu ver, temos The Last of Us. Há, claramente, os diversos altos e baixos dos atos do roteiro. Cenas como Joel sendo empalado, Ellie sendo quase estuprada e assassinada, são intercaladas com cenas lindas e inesquecíveis como o encontro com a girafa, que pôde ser acariciada por nossos protagonistas. John Wick 3, por sua vez, simplesmente chutou o balde num triturador e saiu andando.

É possivelmente um dos filmes mais competentes de ação que vi neste ano, e ao mesmo tempo, esquece que fazer literais 2h20 de tiroteios, cabeças estouradas, cachorros raivosos à la Call of Duty: Ghosts sem parar por um minuto pode ser, enquanto prazeroso de se ver, e até mesmo grotesco, muito, mas muito cansativo pra quem assiste, se não for equilibrado com cenas calmas. O filme LITERALMENTE não dá a mínima pra te dar um tempo pra respirar e refletir, incessantemente mostrando gente morrendo e barulhos altos de tiros que nunca param de empilhar o estresse na sua cabeça, sendo que até mesmo John Wick 1 e 2 souberam trazer o equilíbrio entre as cenas de ação e descanso.

É um bom filme, com certeza entretém o público, mas é impossível não perceber que, quanto mais próximo chegamos ao fim da trama, mais absurdas e exageradas as ideias foram ficando. Não é algo ruim, mas começaram a esgotar seus atores, suas coreografias, seus cenários, suas ideias narrativas, e não o filme passa a não dar a mínima pra desenvolver uma história além de estabelecer personagens que veremos em uma guerra cada vez maior no próximo filme (assim como Guerra Infinita termina, de certa forma, deu abertura a Ultimato). Após sair da sala de cinema, eu me sentia exausto, com falta de ar e dor nas pernas de tanta ação incessante, com as cenas acorrentadas uma atrás da outra, literais puras pilhas de corpos empilhando sem parar, e esse problema dos excessos é algo que, provavelmente, todos vão notar ao longo de sua exibição nos cinemas.

Enquanto consistente em sua qualidade única de combate corpo-a-corpo coreografado, John Wick 3 começa a perder sua essência de franquia, assim como qualquer outra franquia grande, em troca de novos horizontes. A ação passou de aliada a inimiga no filme, transferindo seu papel de “entreter, prender o foco, agradar” os espectadores a “matar todos de exaustão”. O filme peca muito em excessos e no desequilíbrio entre os conflitos armados e o desenvolvimento da sua própria história, mas pode ter um futuro promissor, se for restaurado tal balanço entre ambos.

Confira o trailer abaixo:

O terceiro capítulo da franquia se passará logo após os eventos de “Um Novo Dia Para Matar” e terá John Wick (Keanu Reeves) enfrentando novos inimigos em Nova York após quebrar as regras e assassinar um chefe da máfia de Manhattan.

John Wick 3 – Parabellum chega aos cinemas brasileiros em 16 de maio

 

 

 

 

Crítica: John Wick 3 - Filme que traz ação até demais
3.5Bom
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