Nanotale: Typing Chronicles é o mais novo “T-RPG” (RPG de Digitação; esse termo não é oficial, mas é como vamos chamar nessa análise) da Fishing Cactus, um estúdio independente da Bélgica. O jogo serve como uma continuação espiritual para o aclamado Epistory – Typing Chronicles, um jogo de mecânicas muito similares que se passa em um mundo de papel e dobraduras de origami, recebendo ótimas notas na Steam.

Mesmo assim, o estúdio fez questão de apontar as diferenças e ressaltar que Nanotale não é uma continuação direta dele, mas sim uma “versão 2.0 do projeto”, com melhorias de combate e novos sistemas de experiência, navegação e narração.

Cavernas de Nanotale. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Cavernas de Nanotale. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

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Enredo

A trama gira em torno da arquivista Rosalinda, uma jovem feiticeira que finalmente pode explorar o mundo fora das livrarias, tentando aprender mais sobre as magias da natureza e ganhando experiência estudando a fauna e a flora, de fragmento em fragmento, enquanto documenta tudo em seu diário.

Durante sua expedição, a protagonista encontra uma raposa gravemente ferida na floresta e tenta protegê-la, o que acaba resultando em ambas sendo encurraladas. A raposa, então, se transforma em um espírito e carrega as duas à segurança.

O comecinho do livro da flora de Nanotale se preenchendo.

O comecinho do livro da flora de Nanotale se preenchendo.

 

O jogo estica sua história de localizações que vão das Florestas Anciãs até a Árvore da Vida, expandindo sua narrativa cada vez mais ao longo do desenvolvimento de cada arco. Infelizmente, ainda não são muitos os personagens memoráveis do jogo, que possui diálogos fracos no geral e sofre de uma grande repetição de NPCs sem muito propósito além de repetir frases genéricas ou ceder missões secundárias com recompensas pequenas.

Por fim, o jogo peca um pouco nas explicações de certas habilidades desbloqueadas e em como elas interagem com o mundo, mas não é algo que necessariamente te impede de jogar, já que muitas dessas coisas são possíveis de se desvendar na base da tentativa e erro (mas que continua sendo confuso e não muito ideal a se fazer com jogadores casuais).

Nem todo NPC de Nanotale tem um grande propósito.

Nem todo NPC de Nanotale tem um grande propósito. Quase nenhum é memorável ou único, também.

Jogabilidade

A Digitação

Possivelmente a parte mais promissora de Nanotale é a sua mecânica de combate única, que batizamos no início da análise de “Typing RPG” ou T-RPG (RPG de Digitação). A sua gameplay é, claramente, de um gênero singular na indústria, adotando um estilo de jogo que é pouquíssimo explorado por outras empresas por conta de seu gênero de nicho e majoritariamente sendo apenas acessível aos jogadores em computador.

O jogo também possui dois tipos de dificuldade: um sistema de dificuldade adaptativa, que vai se ajustando de acordo com sua velocidade de PPM (Palavras Por Minuto), ou um sistema manual que vai de 30 a 100 PPM. Na minha experiência, o sistema adaptativo pode ser confortável mas gradualmente se torna difícil para os “guerreiros de teclado”, sendo que pessoalmente girei em torno de 80 PPM no sistema ao longo da campanha.

Se você digita rápido, o jogo não demora para esquentar a dificuldade. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Se você digita rápido, o jogo não demora para esquentar a dificuldade. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

A experiência conta com configurações de acessibilidade para 10 línguas (incluindo português brasileiro) e para diversos tipos de teclado, incluindo Dvorak, BÉPO, AZERTY, QWERTY (que é o que você usa), QWERTZ, Workman e Colemak.

Nanotale também possui um problema que é triste, mas crucial para sua jogabilidade: a falta de um vocabulário extenso. Isso não aparenta ser só problema da língua portuguesa, já que muitas análises da Steam de jogadores da língua inglesa também dizem o mesmo (lembrando que o jogo é da Bélgica); para um jogo puramente focado na digitação, algumas palavras repetitivas ou fora de contexto podem ser um pouco ruins e bastante notáveis durante a jogatina.

O começo de Nanotale, onde aprendi algumas das primeiras magias.

O começo de Nanotale, onde aprendi algumas das primeiras magias.

As Bruxarias

Rosalinda possui um sistema relativamente simples de combate: ela conta com uma barra de mana e diversas magias que podem ser mistas, variando de explosões de atração e repulsão de objetos e inimigos até feixes de gelo e fogo, sem contar nos teleportes de curto alcance, cada um com suas funcionalidades específicas ao confrontar inimigos e resolver desafios de plataforma.

O sistema, divertido e bem diversificado por conta das misturas de encantamentos, pode ser até comparado (de forma bem abrangente) com o sistema de combinação de magias do Battle Royale Spellbreak, e não se apresenta particularmente desbalanceado em qualquer momento considerando sua dificuldade adaptativa.

A mistura de magias se prova um conceito divertido e interessante no mundo. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

A mistura de magias se prova um conceito divertido e interessante no mundo. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

O que não funcionou

O jogo compartilha diversos problemas que, ironicamente, não parecem estar tão presentes em Epistory: incontáveis bugs pequenos estão presentes no jogo, em especial na colisão com objetos interagíveis (plantas, pontes) que podem te prender nas paredes e eventos que não acontecem apropriadamente (como gatilhos de missões e objetivos que não funcionam), essencialmente causando o que a comunidade chama de softlock (quando seu progresso é impedido por um problema do jogo).

Felizmente, há um botão de ressurgir no último checkpoint no menu de pausa que foi feito literalmente para evitar que o jogador fique preso nesses lugares, segundo sua própria descrição. Ele não resolve tudo, mas foi uma ideia inteligente e que serve para muitos casos de desespero.

O botão de Ressurgir, em caso de bugs críticos, no canto da tela.

O botão de Ressurgir, em caso de bugs críticos, no canto da tela.

Além dele, dois pontos que pecam bastante são a interface mal posicionada na tela, tornando o combate um pouco desconfortável em momentos de tensão, e com palavras vazando fora das caixas de texto.

O outro grande problema é o mapa: ele é muito impreciso, possui ícones grandes demais e sofre da falta de um sistema de fast-travel a pontos já visitados, sendo que o mundo aberto é bem grande e muito confuso de se navegar por conta das inúmeras pontes e elevações que não são ressaltadas nos desenhos do mapa.

O jogo também sofre de mais outro problema, que é não ter um rastreador de objetivos claro: ao iniciar diversas missões secundárias, elas vão aparecer espalhadas no seu mapa para serem concluídas e acabam se misturando com diversas outras se você não as concluir com o tempo.

Navegar pelo mundo pode ficar facilmente desinteressante e confuso.

Navegar pelo mundo pode ficar facilmente desinteressante e confuso.

Por fim, Nanotale não possui um botão dedicado a salvar o jogo, já que ele o faz automaticamente em diversos pontos da história; o problema disso, no entanto, é que o ícone que te avisa isso é minúsculo e aparece por menos de três segundos ao canto da tela, acontecendo quase que de forma escondida de você.

Desenvolvedores atenciosos e dedicados

Um ponto que é bom ressaltar, porém, são os esforços da Fishing Cactus a arrumar todos esses problemas, visto que algumas análises e problemas no fórum da Steam estão sendo respondidos pelo estúdio, dentro do possível. Além disso, diversas atualizações saem quase semanalmente, corrigindo alguns dos problemas mais grosseiros citados acima (que ainda continuam bem frequentes).

Direção de Arte

Nanotale: Typing Chronicles certamente porta consigo uma boa linha de gráficos cartunescos com traço bonito. Porém, infelizmente, eles demoram para começar a transparecer sua verdadeira beleza, em especial com os estilos de “floresta encantada mística” da Floresta Anciã, um bioma que achei ser um pouco genérico e muito remanescente de jogos como no início de Rayman 3: Hoodlum Havoc e Ori and the Blind Forest.

Nanotale possui cenários lindos, mas nem sempre memoráveis.

Nanotale possui cenários lindos, mas nem sempre memoráveis.

Em contrapartida, esse “problema” não se aplica tanto aos atos posteriores como o deserto e a caverna, já que eles trazem consigo uma variedade de personagens e tribos com visuais únicos, além dos belos elementos decorativos.

Por sorte, a direção de arte melhora drasticamente em partes posteriores do jogo. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Por sorte, a direção de arte melhora drasticamente em partes posteriores do jogo. Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Esse ponto da originalidade é mais reforçado pelo seu jogo anterior, Epistory, que possuía gráficos e animações incríveis inspirados em dobraduras japonesas de papel – origamis – que por sua vez traziam uma atmosfera mais artística e singular ao jogo (comparável com, por exemplo, a unicidade da arte de Yoshi’s Story ou Paper Mario para Nintendo 64).

Epistory, em toda sua glória de jornada de origami.

Epistory, em toda sua glória de jornada de origami.

Vale também apontar que muitas seções do jogo que envolvem plataformas ou até passar por pequenos morros não são muito perceptíveis ao jogador, já que tudo tem esse estilo visual “de massinha de modelar”; com isso, você pode acabar ficando confuso e pode se perder com as inúmeras paredes invisíveis que não são muito claras na ambientação do jogo, algo que aflige a navegação do jogador constantemente.

Trilha Sonora

A Trilha Sonora tem muitos dos mesmos pontos positivos e negativos da Direção de Arte: são “alegres”, “divertidas”, com suas nuances de um mundo místico e com seus momentos lindos de brilhar; entretanto, a maior parte das produções possui certos problemas técnicos e são, no geral, muito esquecíveis ao jogador.

As músicas podem, em momentos específicos, parar de tocar ou simplesmente repetir de forma brusca e notória, quebrando completamente a imersão do jogador. Felizmente, certas atualizações já aparentam prometer corrigir esses problemas.

Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Fonte: Divulgação / Fishing Cactus

Falando também em diálogos, assim como nas músicas, muitos desses outros elementos sonoros do jogo se encontram mal otimizados, com repetições imperfeitas e timings errados durante conversas ou cutscenes, podendo também cortar ou repetir falas em certos momentos.

Conclusão

Nanotale não é ruim, porém aparenta ter sido apressado para um lançamento já agendado há muito tempo. O jogo aparenta ter certo sucesso de vendas no nicho de jogos de digitação, e não é uma cópia de outros como The Typing of the Dead: Overkill ou o bullet hell The Textorcist: The Story of Ray Bibbia, mantendo certa originalidade dentro do gênero.

Podendo servir como um bom jogo de introdução aos jogadores interessados em treinar a digitação, Nanotale não passa muito mais que isso: um jogo de entrada, simples, não muito mais que esquecível mas divertido. As minhas recomendações aos interessados são esperar por uma promoção para obtê-lo e, principalmente, ficar de olho no seu predecessor com notas maiores: Epistory, da mesma empresa.

 

Nanotale: Typing Chronicles é divertido, mas carece de polimento - Análise
3.3Bom
Enredo
Jogabilidade
Direção de Arte
Trilha Sonora
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