Games na Pandemia

Como os games afetaram os ambientes de trabalho na pandemia?

Com o COVID-19, diversas ações do cotidiano tiveram que mudar devido à quarentena. Com base nisso, nós do Recanto do Dragão realizamos uma reportagem destacando a importância dos games na pandemia.

O texto original foi produzido pelo repórter Gustavo Gama de Oliveira e pela jornalista Rebecca Gigli Buonano, adaptado para publicação no site pelo editor Yan Heiji.

Jogos no ambiente acadêmico

Dentro do cenário pandêmico, todos tivemos de nos reinventar e achar novas formas de realizarmos atividades. Os profissionais da área da educação precisavam de novos meios para entreter os alunos e passar o conteúdo de forma didática, transformando o aprendizado em uma prática divertida.

Uma das estratégias encontradas foi a utilização de games durante as aulas, usando estes para exibição de monumentos 3D, contar a história de forma mais divertida, ou até mesmo como análise de decisões.

O professor do curso de Design de Games do Centro Universitário Belas Artes, Jaime Vega, nos explicou como os jogos servem como alternativas eficientes durante as aulas. De acordo com Jaime, o ser humano apresenta uma ótima aprendizagem em ambientes de jogos por conta de nossa criação de infância, onde aprendemos de forma mais rápida em meios lúdicos. Pode-se dizer que é natural tanto do ser humano, quanto dos primatas…

Assassin’s Creed

Em áreas como arquitetura e design, softwares foram montados a partir de motores gráficos de jogos para o desenvolvimento de produtos. A navegação e modelagem não se diferenciam de muitas técnicas de jogabilidade dos games, também.

O professor afirma que hoje é comum o uso de games como Assassin’s Creed para aulas (como em tours virtuais) por civilizações antigas como Atenas, Paris, Egito Antigo e outras. Tal cenário é apenas possível porque as produtoras de games focaram cada vez mais em reproduzir narrativas fiéis quanto a narrativa do jogo.

Diante desse novo mundo, é necessário achar uma fuga da realidade, encontrado por meio de vivências paralelas. Estas possibilitam que os jogadores tenham um ambiente onde possam se expressar e compartilhar momentos tristes ou alegres.

De acordo com Vega, quando a população está feliz ela joga, e quando está triste também joga para dar a si um tempo distante da realidade. Sob uma crise como hoje, na pandemia, os games continuam em alta. Podemos somar que as famílias estão mais tempo juntas e o entretenimento se torna algo fundamental.

Os games na pandemia servem como uma fuga da realidade que é uma opção para alívio de estresse e preocupação; porém é necessário deixarmos claro que não é uma desconexão ou entorpecimento, mas sim uma realidade paralela de vivência.

“As realidades são assim múltiplas devido a cada um construir uma forma de interpretação de fatos verdadeiros, através dos conceitos que constroem a sua própria razão. Estas realidades sem distinção têm grau de importância idênticas, não sendo possível nos dias de hoje dizer que a realidade de um é mais importante do que a realidade de outro.”

Minecraft nas escolas

Alguns professores mais criativos optaram por lecionarem suas aulas utilizando jogos online, ao invés das convencionais salas de reuniões em aplicativos como o Zoom. No Brasil, tivemos o caso do professor de matemática Helton Gonçalves, do Colégio João Paulo I, que aplicou suas aulas pelo jogo Minecraft.

Segundo ele, a estratégia foi escolhida para prender mais a atenção e o foco dos alunos durante as aulas. O jogo permitiu que o professor interagisse com um quadro negro (criado dentro do próprio jogo) e consequentemente aumentasse sua interação e relação com os estudantes. Para os alunos que não conseguiam acessar o jogo, a aula foi transmitida em uma live no Youtube e também foi gravada para os alunos assistirem mais tarde.

O projeto do professor acabou sendo batizado de “Colégio Craftsapiens”, sendo que o canal do Youtube continua a receber atualizações periódicas sobre os planos do professor de expandir suas lições dentro de salas virtuais em mundos customizados do jogo.

Reuniões de trabalho

Um caso que marcou esse inovador meio de interação profissional foi o da artista inglesa Viviane Schwarz, que relatou pelo Twitter sua experiência ao fazer uma reunião com seus colegas de profissão no jogo Red Dead Redemption 2.

Segundo ela, a reunião na plataforma permitiu uma relação mais leve do que uma sala online. Schwarz comenta que é “bem mais relaxante discutir projetos futuros sentada ao lado de uma fogueira e ouvindo os sons dos lobos” com seus colegas do que ficar com a webcam ligada vendo apenas os rostos de seus companheiros de trabalho.

“Zoom é uma porcaria, em vez disso começamos a ter reuniões editoriais no Red Dead Redemption [2 Online]. É bom sentar perto da fogueira e discutir projetos, com os lobos uivando à noite.”

Mesmo assim, Viviane disse que boa parte dos problemas técnicos que enfrentaram apenas contribuíam pro relaxamento da equipe, ao invés de ficar forçando sorrisos enquanto se escreve e assina múltiplos papéis.

“O principal problema técnico que tivemos é que às vezes a mesa de reunião [no jogo] não existe para todos, e sentar no chão é o mesmo botão que estrangular a pessoa mais próxima. Ainda assim supera o Zoom.”

Saúde física

Os games também tem uma função importante na quarentena quando o assunto é saúde física. Em meio ao fechamento de academias e parques, praticar atividades físicas se tornou um verdadeiro desafio para muitos; com isso, várias novas maneiras de praticar esportes dentro de casa surgiram como opção para manter a saúde em dia.

Uma das mais populares opções foram jogos que requerem captação de movimento, como Just Dance, no qual o jogador tem que imitar passos de coreografias de músicas famosas para conseguir uma boa pontuação.

Segundo o treinador de atletas de musculação Douglas Sita, não há diferença nenhuma entre fazer uma caminhada de uma hora na esteira e ficar dançando no Just Dance durante uma hora: as duas opções são ótimas formas de gastar energia e manter a saúde física. O treinador ainda afirmou já ter utilizado treinamentos com o jogo Fitness Boxing com um dos seus alunos de consultoria.

Analisando a parte psicológica

Com a progressão severa da pandemia e a quarentena para contenção da covid-19, a maior parte das atividades sociais foram restringidas, restando aos jovens se divertirem e descarregarem suas frustrações dentro de casa. De acordo com a psicanálise e a teoria Aristotélica, o ser humano é um ser social, necessitando de outras pessoas para se sentir pleno e feliz.

Os jogos, por sua vez, adquiriram um papel importantíssimo de empenhar uma “fuga” à sociedade, psicologicamente falando. A fuga da realidade oferecida pela indústria contribuiu para mudar a atenção de um tema ruim para histórias mais leves, divertidas e emocionantes.

A psicóloga Márcia Barbieto nos explicou como os games na pandemia ajudam a aliviar o estresse causado. Apesar de afirmar que só poderíamos calcular e comparar esse estresse ao retornar à uma rotina comum, os jogos ainda “facilitam o contato através do mundo virtual, já que o encontro presencial faz falta”. Barbieto também afirma que muitos jovens conversam enquanto jogam e acabam contando de suas dificuldades no dia a dia por conta do ambiente de descontração que muitas vezes se encontram nesses universos.

“A possibilidade que os jogos deram à adultos e jovens de se conectarem ajudaram a minimizar os efeitos do distanciamento social. O ambiente provoca uma sensação de segurança, fazendo com que o jogador não apenas se abra, mas também pense que no fim tudo ficará bem.”

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