COPPER ODYSSEY

COPPER ODYSSEY é um RPG excêntrico que merece seu tempo

Esta é uma breve recomendação de COPPER ODYSSEY, um jogo de RPG sobre um estúdio de impressão.

A cada dia que passa fica mais difícil achar gemas escondidas navegando pela Steam, já que em 2017 eles removeram completamente qualquer tipo de moderação para aprovar jogos em sua plataforma. Isso acabou abrindo espaço para inúmeros jogos shovelware (em grande parte muito, muito hentai) e fez com que ótimos jogos independentes perdessem suas chances de serem descobertos.

Mas isso não me impediu de procurar mesmo assim.

Tendo que passar por belezinhas como esta, e esta no caminho, eu consegui achar alguns jogos que pareciam ser ótimos e acabei decidindo pegar COPPER ODYSSEY. Por que?

Eu estou cada vez mais interessado em jogos com visuais mais abstratos e experimentais, algo que começou depois de eu passar 40 horas buscando o 100% no melhor jogo do ano, Cruelty Squad. Então acho justo dizer que eu só acabei escolhendo COPPER ODYSSEY principalmente por sua estética, e isso é um elogio.

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Esta imagem representa bem a sensação de jogar COPPER ODYSSEY

A arte dele é bem eclética e usa tanto de cores harmoniosas quanto contrastantes para criar uma atmosfera extraordinária. É comum entrar em uma área nova e conseguir identificar três ou mais estilos artísticos distintos nos diversos objetos e personagens. Inclusive, os designs de todos os personagens são absolutamente impecáveis, e exibem muito bem suas respectivas personalidades.

Algo que também ajuda é a pura quantidade de NPCs presentes no jogo, sendo eles em grande parte humanoides e vários casos desconfortavelmente não. Tanto eles quanto a variedade de temáticas e design de áreas montam uma direção visual impressionante.

A premissa de COPPER ODYSSEY é simples, mas é apresentada de maneira obtusa. Você começa como Monitor, uma pessoa que, bem, monitora um estúdio de impressão. Quatro ladrões roubaram os suprimentos do estúdio, então você deve pegá-los de volta. Esta sinopse fica clara se você assiste o trailer do jogo, mas eu só tinha visto as fotos antes de jogar.

Por causa disso, eu acabei pegando a ideia da premissa e o resto da história toda completamente ao ler os diálogos (que beiram a insanidade), e isso adicionou muito à experiência. Acredito que os únicos outros jogos que passam um sentimento parecido são Pathologic e Hylics, e mesmo assim COPPER ODYSSEY se destaca por te colocar em um estado de trance ao jogar. Falas que se lidas sem contexto não fazem o menor sentido se tornam naturais e a progressão não linear do jogo ajuda a colocar o jogador na posição de constante descoberta e aventura.

COPPER ODYSSEY não te guia nem no começo. O jogo espera que você ache todos os outros membros de seu grupo (sua party) antes de começar a explorar uma das quatro áreas principais, e mesmo sabendo que todos eles estão próximos do início é fácil achar apenas um ou dois e ir direto para uma área que vai te destruir completamente pela sua falta de poder.

Ok, então anote isso e mais duas coisas importantes. Cada área representa um chefão, que por sua vez representa uma cor do esquema CMYK, que é usado para impressão (temático, não é?). A sigla CMYK significa Cyan, Magenta, Yellow e blacK, então mesmo com você tendo a opção de ir para qualquer uma das áreas, seguir a ordem da sigla resulta na curva de dificuldade recomendada para uma experiência mais suave, se isso é o que você procura.

Cada uma das áreas dá lugar para encontros aleatórios que funcionam de maneira similar a dungeons em qualquer outro RPG, mas com muito mais checkpoints para reviver e restaurar a vida dos membros de seu grupo. Eles até estranhamente não curam o estado de veneno, algo que me pegou de surpresa e me matou antes de perceber. Acredite, você vai precisar desses checkpoints, pois o combate não é o mesmo de JRPGs comuns.

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The pink time!

Já jogou Shin Megami Tensei? É, eu não. COPPER ODYSSEY tem o sistema de combate Press Turn, o mesmo da clássica franquia de JRPG, e o jogo não faz lá muita questão de te explicar como ele funciona exatamente.

Mesmo assim, não se preocupe! Isso adiciona ainda mais ao constante ar de descoberta que ele passa para você a todo momento, e o sistema não é tão complicado de qualquer jeito. É por isso que vou me abster de explicar ele.

Mas isso não me impede de falar dos encontros aleatórios em si, que são extremamente refrescantes em um mar de jogos em turno com dinâmicas indistintas. Os inimigos passam aspectos de suas personalidades no combate, e têm ações que inicialmente podem ser vistas como erráticas, mas que fazem completo sentido ao aprender como lidar com eles por experiência.

A maioria dos inimigos consegue zerar os pontos de vida de um de seus personagens em apenas um ou dois ataques, e isso gera uma sensação de urgência até nas mais simples batalhas. Se isso soa um pouco assustador, não é. O jogo te dá mais itens de curas e de reviver que qualquer um que eu já vi e o item de cura mais abundante, Lunchtime, cura a party inteira de uma vez só.

isto não é SMT

Ter que mexer constantemente no menu de itens no meio do combate para reviver alguém também acaba influenciando o jogador a usar seus itens sem medo deles acabarem, já que muitos acabam nem tocando nos itens ao decorrer de vários RPGs comuns.

O balanço do combate de COPPER ODYSSEY está em sua gestão de itens e habilidades de cura enquanto você tenta infligir o máximo de dano possível em cada turno. Isso é no mínimo peculiar, e ajuda mais ainda a distinguir este jogo de outros JRPGs.

As áreas também esbanjam charme. O simples ato de navegar por uma das quatro zonas já é inquietante, pois você pode atravessar por muitos objetos e ir para áreas completamente inúteis que são tão bem construídas quanto as importantes. Além disso, os personagens ao seu redor são enigmáticos e mesmo tentando, acabam tentando te guiar de maneira tão bizarra que as vezes você fica mais perdido ainda.

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Existem alguns personagens que são exceções para esse comportamento (a JAX, por exemplo) e são eles que impedem COPPER ODYSSEY de virar uma experiência um pouco críptica demais. Não é difícil chegar aos créditos, mas você terá que se acostumar com as particularidades do jogo.

Eu acabei de passar um tempo considerável tentando recomendar esse jogo que mal recebeu atenção em seu lançamento, e espero que o jogo tenha soado interessante por minha descrição. Ele está disponível tanto na Steam por um preço baratinho quanto na loja Itch.io pelo sistema “pague o quanto quiser”, então você pode dar uma chance ao jogo sem sequer pagar um centavo.

CO5

Se você quer ver mais da arte da pessoa que desenvolveu o jogo, aqui está o Twitter dela.

Foi necessário me conter para não acabar falando de mais detalhes que (ao meu ver) estragariam a experiência, então saiba que COPPER ODYSSEY ainda tem muito a oferecer além do que eu disse por aqui. O charme dos personagens, trilha sonora e visuais são alguns dos maiores chamativos dele, e se você já gosta de RPGs desse estilo, é uma recomendação certeira.

Boa sorte ao jogar, e lembre-se de respeitar o ofício.

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