Loucos por Justiça

Loucos por Justiça tem a cabeça em um lugar e o coração em outro – Análise

Loucos por Justiça é o mais novo longa protagonizado por Mads Mikkelsen, ator dinamarquês conhecido por Hannibal, Druk – Mais Uma Rodada, filme de 2021 que ganhou o Oscar na categoria Internacional, e finalmente por sua recente colaboração no mundo dos games com Death Stranding.

Loucos por Justiça

O filme se introduz com várias cenas aparentemente desconexas, mas que resultam na morte da esposa de Markus (Mikkelsen) em um suspeito acidente de trem. O militar eventualmente conhece o matemático hiperanalista Otto, que afirma veementemente que o acontecimento não foi “mera coincidência”, o que acende uma chama de ódio e vingança em Markus e o leva a enfrentar muito mais que os meros acusados do caso.

Apesar de visualmente e estruturalmente se apresentar como um mero filme de ação meio “genérico”, como John Wick ou até Polar (uma espécie de rip-off exagerado do primeiro, também protagonizado por Mikkelsen), Loucos por Justiça possui uma premissa muito mais singular e profunda que o mero “gosto por violência” espetacularizado nesses dois filmes.

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Durante o longa, são notórias as representações meio caricatas – por vezes, através de um humor negro muito forte e incômodo – sobre como traumas de vida afetam o desenvolvimento das personalidades e relações sociais dos personagens com o resto do mundo.

Os problemáticos protagonistas eventualmente passam a se conectar através da comunicação e interação, ao ponto de se compreenderem e se desenvolverem juntos, superando seus traumas do passado e alcançando uma espécie de “redenção” própria.

Essas conexões são fortalecidas ainda mais pela amizade e o senso de empatia elaborado entre eles, um elemento que se desenvolve enquanto todos lidam com situações particularmente difíceis (tanto ao longo de suas vidas, quanto ao longo da trama).

Mesmo com uma premissa tão cheia de carga emocional e com um potencial incrível, sua apresentação chega no mínimo a ser comparável com o jogo Spec Ops: The Line, reconhecido na indústria por ter uma narrativa profunda e sensível quanto aos horrores da guerra (chegando a “recriar” o quadro Guernica, de Picasso, em uma de suas cenas), mas contendo um núcleo de jogabilidade cru e genérico, como se ambas as obras fossem ironias que exaltam a antítese entre sua reprodução genérica e a mensagem profunda que está contida em si.

Muitas das cenas que deveriam ter um peso emocional muito grande não se dão tempo suficiente para conquistarem uma tensão, que seria necessária para atingirem um significado maior na trama; isso provavelmente se dá por conta do filme ter múltiplos personagens – um protagonista e ao menos cinco deuteragonistas – cada um com sua própria narrativa complexa que precisava ser concluída dentro do prazo de uma hora e cinquenta e seis minutos de filme (o que, honestamente, não é tão longo pra ter tanta história).

As cenas impactantes acontecem de uma forma muito crua e simples, o que explicita o conflito “reprodução versus mensagem” e impede que o filme se elabore o suficiente em qualquer uma das duas perspectivas. Ele não tem as coreografias, iluminações ou trilhas sonoras espetaculares de John Wick, mas também não chega a massacrar com sua história tocante como na própria sequência final de Death Stranding (que tem quase duas horas de “filme”), ficando preso numa espécie de limbo.

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Infelizmente, as indecisões de Loucos por Justiça provavelmente não o tornarão a próxima sensação do momento, mas pessoalmente considero sua apresentação satisfatória e suas mensagens importantes o suficiente para dizer que o filme vale a pena ser visto por aqueles que se interessarem.