Assassin’s Creed Black Flag Resynced perdeu Aura. Quem sabe até seus Hype Moments. Será que todos os videogames estão perdendo sua aura? Neste caso, eu estou usando como definição o que Walter Benjamin estabeleceu em seu ensaio “Pequena história da fotografia” e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, mas também pode ser a definição do Tiktok ou dos comentários do seu influenciador digital de caráter duvidoso favorito.

Existe um movimento cultural contemporâneo para o lançamento deste texto de reivindicação cultural das produções de massa dos anos 2010. Se millennials sentem nostalgia de seu Playstation 2 e seu Xbox 360 modelo Arcade e de jogar Halo 3, Tony Hawk’s Pro Skater e Black tomando Coca-Cola e comendo Doritos. Agora é a vez da Geração Z lembrar de jogar Halo Reach, Skate 3 e Call of Duty: Black Ops 2, tratando estes como objetos culturais intrínsecos a uma geração. Do mesmo modo que agora nu-metal é tratado com o mesmo nível de respeito que alguém trataria os Beatles há vinte anos atrás.
Em um mundo globalizado e algoritmizado, toda movimentação cultural bate forte e sem dó em nossa cara. Os movimentos “decoloniais” — corrente que desconstrói o colonialismo — se tornaram uma pauta importada das conversas de jovens americanos nas mídias sociais. Na máxima destas sensações o termo “White Boy Summer” foi categoricamente definido nas minhas redes sociais com o lançamento de Call of Duty: Black Ops 1 e 2 para Playstation 4 e 5, e claro, Assassin’s Creed IV: Black Flag.
O retorno da franquia para um mar já conhecido. Estamos no inverno, e até onde eu sei, no formulário de um emprego internacional, eu não sou white, eu sou white (brazillian).

Assassin’s Creed IV: Black Flag Resynced é um remake de um jogo de 2013. Um jogo sobre navegar o mar do caribe e assassinar algumas pessoas. Lançado em 9 de Julho de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series S|X e PC, publicado pela Ubisoft e desenvolvido primariamente pela Ubisoft Singapore.
A Ubisoft Singapore é um estúdio aprisionado na trincheira do Skull and Bones e na falsa narrativa de que o combate naval do Black Flag original seria capaz de segurar um jogo inteiro. Claro, eles também desenvolveram o remake do jogo das Tartarugas Ninja da Konami (Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time Re-Shelled) para Xbox Live Arcade e Playstation Store. Isso realmente importa pra essa história.

Em Black Flag Resynced você não precisa completar milhares de pontos de interesse pintados com interrogações e símbolos coloridos. Brincadeira! Apesar de certamente evadir da magnitude doida dos seus contemporâneos, nesse Assassin’s Creed — assim como todos os títulos recentes — tem até missão temporária pro seu Passe de Batalha de assassino!
Quando Assassin’s Creed IV: Black Flag chegou no mundo como um videogame cross-gen e dublado em português — erroneamente definido como arcaico em páginas da internet —, meus sentimentos eram conflitantes. Era o Assassin’s Creed que eu mais me interessei durante minha infância, mas, honestamente a discursiva da internet já me parecia estar saturada da franquia.

Não era difícil encontrar publicações no youtube e memes sobre o fato do Edward não ser tecnicamente um assassino. Eu não tinha problema nele ser um Jack Sparrow, mas particularmente preferiria um Guybrush Threepwood e qualquer coisa derivada de um espetáculo da Disney que não fosse o Johnny Deep.
Quando adquiri o DVD — completamente legítimo…— de dois discos para Xbox 360, em que um dos discos era completamente inútil pois continha o online do jogo (nem a pau alguém me pagaria Xbox Live Gold). Parte da minha euforia se encontrou perdida no oceano. Brincadeira, ela ficou perdida no Mar do Caribe. A expansividade do mundo era fascinante, mas frustrante em volume. Velejar era repetitivo e eu particularmente odiava o quão sujo o rosto de todo mundo era. Bem, meus problemas acabaram né! Cortaram várias mecânicas e toda nova cutscene é feiosa. Mas pelo menos todo mundo no remake deste jogo parece que tá sendo filmado num IPhone novo com filtro de Instagram.

Talvez minha principal tese de Resynced seja a mais fraca de todas as minhas reflexões, pois é difícil não se sentir pretensioso interagindo com Assassin’s Creed depois de tantas e tantas reiterações que nos obrigam a sentir desdém da estrutura de UbiGame. Nos dias de hoje, gamers de nariz empinado vão colocar o mesmo volume de desdém na franquia que colocam em Call of Duty e Gears of War, enquanto ainda se emocionam com Uncharted e Zelda.
Sendo assim, todo o carinho pelo jogo é lotado de “mas”, “poréns” e “todavias”. Para toda ambientação fascinante existe alguma cena com atuação desconfortavelmente bizarra dos modelos tridimensionais, não mais realizados por motion capture, mas sim com algoritmo de dublagem moderno — tipo The Witcher 3 — e afins. É escabrosa a diferença que uma cutscene do jogo original tem com algumas das dezenas de novas cenas da jornada de Edward; que comprovam a escrita pastiche auto-derivativa e cheia de clichês que só podem vir de uma corporação que fez a batalha dos 300 parecer uma cena de Vingadores.
O meu ponto é simples: o jogo original tem mais aura que o Remake. Portanto, o Remake na verdade é a melhor opção para você jogar. Para provar, em partes, meu ponto, mesmo me dedicando a rejogar a introdução do Black Flag original no Xbox 360, eu decidi não colocar nenhuma imagem dele aqui…

Essa afirmação pode se desdobrar numa série de potenciais argumentos. Não gostaria que nenhum deles fosse desenvolvido de maneira protocolar. Só afirmar que é puramente razão de Resynced ser um videogame mais hiperpalatável.
O combate é exponencialmente mais cativante no jogo original. Atacar com hidden-blades, batalhar no punho quando bem entender, ou mesmo coletar a arma dos seus oponentes é bem melhor do que só usar suas espadas e nada mais.
Em Resynced, a coreografia cinematográfica é abandonada para privilegiar o combate proto-soulslike de ataque no R1, mais repetitivo, menos variado. Isso também vem pro stealth, e quando você percebe, encara o abismo que é Black Flag Resynced ter basicamente a mesma HUD que Assassin’s Creed Shadows. O combate naval é complexo para herdar os novos elementos de Skull and Bones, e isso é ótimo. Afinal, nem eu, nem você jogamos Skull and Bones.
Todas as pequenas e grandes alterações de um jogo que retira de seu crachá os algarismos romanos “IV”, para soar como uma excelente porta de entrada para novos fãs são assimilações do projeto de RPGficação da franquia. Aquele que faz você se acostumar com tão pouco que é capaz de te fazer enxergar DNA de Asssassin’s Creed 1 no pastiche de Assassin’ s Creed Mirage.
Eu acho que se isso é um projeto de gaslighting, deu certo! O modelo de produção de “RPGs” mundo-aberto que The Witcher 3 e suas consequências para a Ubisoft foram uma bagunça para o desenvolvimento de AAA. “Fazer coisa” importa mais do que saber o por que você “Faz coisa”. Quanto mais “coisa”, melhor.
Velejar no caribe assassinando espanhóis, ingleses, portugueses e a fauna local com Edward Kenway é a coisa mais interessante que a franquia me trouxe, desde quando…eu joguei Assassin’s Creed IV. Talvez eu deveria amaldiçoar esses gráficos novos. Droga… eles são muito bonitos, eu não sou capaz de aceitar que esse videogame rode em computadores pessoais, consoles e saia impune.

Tá podendo falar de bugs? eu tive um bug… que me impediu de conseguir entrar no meu navio. Eu já estava bem próximo do fim do jogo e fiquei desesperado. Depois de algumas pesquisas na internet, a potencial solução era jogar alguma missão para resetar a lógica do jogo e ele lembrar de que eu tenho, sim, direito a navegar com minha tripulação.
Precisei cruzar de Havana até Great Inagua nadando. Foram cerca de uma hora e uns quebrados em que eu observava Kenway nadando feito um louco, com as teclas W e Shift do meu teclado pressionadas por uma quantidade razoável de fita crepe — que de tempos em tempos descolava — enquanto eu pensava na infortunia ideia de meu problema não se resolver; matando assim, partes do propósito desta análise.
Em retrospecto percebo que, me serviu de algo. eu descobri que as pessoas fazem isso por diversão e conteúdo. Atravessam grandes distancias deste videogame de maneiras incomuns, como nadando. Ora, se eu tivesse gravado esse momento, poderia ter feito um vídeo vertical engraçadinho! Aonde está minha visão publicitária? Os bugs nesse jogo certamente existem. Water is molhada. De pouco a pouco você aceita essa onisciência do que é um jogo da Ubisoft.

Ser Edward Kenway implica numa série de essencialidades, aquela que impera é seu privilégio. Seja o de ter uma esposa que o amou, mesmo quando ele a abandonou para caçar tesouros e fugir da responsabilidade. Seja o de ter tantos amigos ao redor do mundo, que o respeitam e se preocupam com sua compulsão. Seja até o privilégio de sua branquitude e origem humilde, mas com o direito de uma sobrevivência digna, o que o impede de entender as inquietudes e resistência de Adewale — ao ponto do protagonista achar o máximo realizar trocas e negociações com escravistas.
A sua ultima e talvez mais relevante essência é ser predestinado a ser um assassino; realizando execuções, saltos de fé e tudo que está presente no códice que conhecemos com Altair; diretamente do seu subconsciente. Sem nunca sequer ter interagido com assassinos até enfim ter executado Duncan Walpole. Pelo menos é nisso que eu acredito, sem fazer questão de buscar nenhuma novelização para livros ou vídeos de história explicada por youtubers.
Se faz então a tragédia, pelo protagonista, passar quase que o jogo inteiro, vivendo eternamente o terceiro passo da — medíocre — conceitualização da jornada do herói. Recusando e recusando o chamado dos assassinos. Buscando o ouro como louco e dando péssimas sugestões e ideias pros próprios amigos.

Sua natureza pode ser vista como puramente egoísta, no entanto as entrelinhas de suas convicções se tratam ainda mais numa linha que conversa com a materialidade do mundo. Fugir para algum canto pobre do mundo e tentar acumular algum tipo de capital é uma história não tão recente de se ouvir de familiares com descendência deste canto da Europa. Essa sensação de uma ralé que precisa buscar sua oportunidade de vida em outro canto. Que nem sequer tem algum senso de cultura e memória consanguínea a se compartilhar. Se sentindo um estrangeiro do próprio mundo. É daí que mesmo com a malandragem, a melancolia de uma vida traçada na caça de espólios entrelaça o coração do marujo.
Caramba, por que caçar tubarões e baleias em alto mar é tão “rígido” em matéria de animação? Pelo menos navegar debaixo da água é completamente surreal. Talvez a melhor navegação marítima do AAA. Ah sim… eles demitiram as 51 pessoas da Ubisoft Barcelona que trabalharam nesta mecânica do remake.
Talvez seja essa assimetria demoníaca que tanto me fascina, toda essa conversa de industrialização dos videogames pode muito bem ser recusada por quem é honesto com o que joga. Sem se comprometer a invadir todas as bases de seu oponente ou completar o maldito passe de batalha que te dá um macaco verde como pet.

A pergunta mais simples a se fazer seria a de que esse remake vale a pena ou se substitui o original: e a resposta mais simples é a de pouco importa, se você precisa da aprovação de uma pessoa pra convalidar sua decisão, é o sinal de um desinteresse da coisa em si. Mas acho que você pode sim, querer jogar Resynced e se amarrar, e daqui alguns anos, ver em bons olhos o jogo original.
Jogo original este, que está disponivel para todas as plataformas contemporâneas da Playstation, Xbox, Nintendo e PC e que não deveria ter nenhuma justificativa materialista de existência. Mas agora tão inventando que as empresas precisam fazer esses remakes deslocados — como Silent Hill 2, Ninja Gaiden 2 Black e Star Fox — para testar o terreno e ver se alguém ainda se importa com essas franquias…
Galera da Ubisoft, no dia que pararem de se importar com uma franquia que tem como único conceito funcional retratar momentos históricos e justificar assassinato em massa, podem desistir de lançar videogames e focar em processar todo mundo que copiou os Rabbids.

Depois de assassinar tantos espanhóis, ingleses e portugueses trambiqueiros. Foi difícil não pensar que em artigo de ancestralidade, esse é provavelmente o Assassin’s Creed que mais conversa comigo. Por alguns anos eu acreditei que era a saga de Ezio, mas a minha fração sanguínea italiana não é tão grande ao ponto de eu corrigir alguém que fala meu sobrenome com a prepotência de achar que entende alguma coisa de massas por que chama a vó de nona.
Várias das histórias que eu já ouvi realmente se afundam em busca por uma vida melhor, num trabalho braçal longe de casa. Sejam espanhóis, italianos ou portugueses. Da sarjeta se criou a própria identidade e afeto. Talvez fragmentada e nunca cem por cento compreendida ou respeitada.
Num emaranhado da performance de sua própria existência, Assassin’s Creed replica a si mesmo desde que o Príncipe da Pérsia apareceu no Apple II. E se replica nunca sendo capaz de ser a mesma coisa. Retornando às suas próprias contradições e derivações. Um labirinto, talvez. Será que a intenção ainda vive? Edward retoma seu propósito ao decorrer do jogo. Um lugar para chamar de casa. Mesmo que isso não implique em um final feliz. Será que ainda existe lugar no mundo que abrace essa franquia? Enquanto a Ubisoft continuar fugindo do Animus, não.
Uma cópia gratuita de Assassin’s Creed Black Flag Resynced foi concedida pela Ubisoft para análise no Recanto do Dragão.



