One Piece: Grand Battle! 3 é um presságio (e nada demais…?)

No século 20, havia um homem chamado Gold Roger, que era o rei dos piratas. Ele tinha fama, poder e riqueza além dos seus maiores sonhos. Antes que o pendurassem em uma forca, estas foram suas últimas palavras: “A minha fortuna terá que ser encontrada. Eu a escondi toda em um jogo só, por isso o chamei de ONE PIECE.” Desde então, Estúdios Lendários de toda parte do mundo saíram navegando pela era 3D em busca de ONE PIECE: GRAND BATTLE!, a sequência de Power Stone que fará os sonhos virarem realidade!

Bem vindos a Era dos Piratas! Ao lançar Power Stone no mundo, a Capcom iniciou uma grande linha de Arena Fighters de anime tanto levemente quanto totalmente inspirados pela sua criação. O segundo caso foi dominado pelos jogos licenciados infantis, como Shrek Super Slam, Billy & Mandy, The Simpsons Wrestling, Super Farm… e por aí vai. O caos party de jogos como Power Stone e Smash sempre foram atrativos pra audiências super jovens, e as empresas resolveram se jogar de cabeça nessa festa.

A consequência é que maior parte desses jogos são bem rasos, e é o que querem ser mesmo. Não tem muito para se conhecer em fator mecânico, e eles nem precisam se esforçar tanto na gameplay se as cores forem vibrantes, as animações engraçadas e os itens caóticos. Porém, Power Stone tentava ir mais além, e tinha potencial infinitamente explorável do qual quase nenhum jogo tentou se aprofundar.

Grand Battle 3

… Com uma exceção. A franquia Grand Battle até então possuía dois jogos terríveis no mínimo e medíocres no máximo. Sequer funcionava direito como um jogo party, e são títulos esquecíveis após jogar poucas horas, ou mesmo 20 minutos. Isso mudou um pouco no salto do Playstation para o Playstation 2.

Por algum motivo, o time por trás resolveu… se importar? No PS2, o jogo se tornou mais um filho de Power Stone, saindo do 2D e apostando tudo nos cenários abertos. Poderia ter terminado ali, mas o jogo é de fato bom, no ponto de quase ser uma sequência perfeita para Power Stone 2.

Grand Battle 3

A fórmula de Power Stone sempre careceu de um equilíbrio entre casual e competitivo. Enquanto o primeiro jogo não buscava realizar o potencial desses dois lados nem de perto, tendo pouco conteúdo casual e mecânicas super rasas para um jogo de luta, o segundo deixou de lado a nuance mecânica para viver o RPG aventuresco que é o sistema de coletáveis e modos de Power Stone 2. Ainda falta um jogo que possa fazer bom uso dos dois lados tão contraditórios da franquia, e provar que eles podem viver em harmonia. Fico triste em dizer que Grand Battle 3 não é isso, mas ainda parece atuar como uma sequência de Power Stone… 1.

Enquanto PS2 (o jogo) recusou o combate para brincar com conteúdo single player e itens divertidos, Grand Battle 3 parece fazer o contrário e socar todos os pontos de sua criação em combate, mas ainda mantendo o sistema de itens e fases blasfêmicas que caracterizam a franquia.

Grand Battle 3, em comparação com Power Stone possui bloqueios, aparos, Special Moves, dashes, mais botões e uma barra de Super. Já em comparação com Grand Battle 2, possui o quádruplo de golpes, neutro infinitamente superior, Special Moves, mais balanceamento, e DIVERSÃO, que é o que importa.

Muitas dessas mudanças e melhorias são provenientes do cenário 3D, que pediu adaptações. Porém, a execução dessas mecânicas aprimoradas foi pensada com mais carinho, fazendo de GB3 um jogo realmente expressivo e apaixonado. Ele tem falhas, muitas, e vamos falar delas sim, mas dessa vez o time tentou bastante e entregou algo que não é mais uma cópia barata e risível de um jogo maior, e sim uma EVOLUÇÃO de uma fórmula.

Grand Battle 3

Vamos começar falando das suas ações primeiro. Os golpes principais dos personagens podem ser divididos entre Light, Heavy e Anti-Air. Lights são feitos no botão X (Playstation), Heavies no bolinha e Anti-Airs são feitos ao pressionar Triângulo e Bolinha ao mesmo tempo. Os personagens possuem combos de até três hits (no sentido de apertar três vezes, pois os personagens podem atacar múltiplas vezes) em cada botão, e a ordem pode ser alterada ao trocar botões. De um Light você pode seguir com outro Light, ou usar um Heavy. Um Anti-Air pode seguir com Heavy ou começar um combo seguindo no Light. A importância desse sistema é evidente quando você entende o design de golpes de Grand Battle 3!

Quase todo movimento no jogo é especial de alguma forma. Um personagem pode lançar um projétil ao pressionar Light > Heavy e, sendo de fácil acesso, faz parte do seu neutro. Não é apenas um combo com outra finalização, os golpes dentro da sequência possuem usos fora dela também. O Anti-Air > Heavy da Nami lança um bumerangue, o da Hina aplica buff nas algemas dela, o do Chopper é um Command Throw, e vai agarrar inimigos bloqueando.

Enquanto alguns combos de três hits apenas causam dano fácil e rápido, outros possuem finalidades a mais! Por exemplo, o combo Anti-Air > Light > Light do Luffy termina em um Spike, podendo lançar inimigos para fora do cenário causando mais dano. O Anti-Air > Light > Heavy do Ace também faz isso! Spikes são importantes para terminar bem um combo.

Além desses três botões principais, pressionar X e Bolinha ativa um Specialty Attack, que é literalmente um Special mesmo. O do Luffy faz ele virar um balão e bloqueia tudo (inclusive itens), o da Nami é um dash que rouba frutinhas (recuperam barra de Super), o do Ohm deixa uma armadilha no chão que ao ser acionada lança inimigos para o ar, começando combos pra você. Eles podem ser projéteis, counters, setups… qualquer coisa!

Grand Battle 3

No quadrado o personagem pode bloquear. Bloquear nesse jogo te deixa bem vulnerável a throws e unblockables, mas com os golpes tão arriscados que cada personagem tem, ainda vale a pena se souber o que fazer. O parry, bloqueando no momento certo, minimiza esse problema e recupera sua barra de Super no processo!

Porém, Grand Battle 3 quer que você faça um pouco mais do que só bloquear. Alguns golpes, sejam eles unblockables ou agarrões, vão pedir desvios. O desvio pode ser um pulo, correr pra um lado fora da hitbox, ou mesmo golpear seu oponente antes de sair. Isso é bastante similar a como jogos de luta tradicionais funcionam! Todas essas ações possuem riscos.

Nos botões direitos em cima você pode agarrar oponentes e itens. Itens podem ser agarrados no ar, mas inimigos não. Faz sentido, pois não tem como defender no ar! Nos botões esquerdos, você pode executar Supers, que pedem um desses três comandos:

L1 + X > Bolinha

L1 + X > Triângulo

L1 + Quadrado > X > Bolinha (Super 2, gasta duas barras)

Os Supers ativam um golpe que, quando acertar, começa uma rápida animação. Por mais que seja bem rápida e por si só não atrapalhe o combate, errar o move inicial não gasta sua barra. Mais sobre isso depois.

Grand Battle 3

Adicionalmente, você pode fazer um fast fall ao pressionar quadrado no ar e um dash para frente ao defender e pressionar para frente duas vezes. E também vale mencionar que o primeiro Heavy, ao apertar bolinha em neutro, é UNBLOCKABLE e pode quebrar sua defesa. Muitos combos de Heavies só acertam ao quebrar a defesa do oponente, mas eles são caracterizados por serem lentos e anunciarem sua chegada com brilhos vermelhos. Ao ver um Unblockable saindo, ataque primeiro ou desvie! Um Double Jump costuma resolver, mas andar para fora da hitbox permite um contra-ataque. Você também pode usar seu Throw ou um Super rápido em resposta, ou mesmo um move com efeito de Counter, que é muito comum nesse jogo.

Por conta do número maior de opções ofensivas e manobras defensivas disponíveis, os combates de Grand Battle 3 são mais elétricos e estratégicos do que seus quatro antecessores. Toda ação tem uma resposta, há mais agência do jogador no resultado das lutas e estratégias únicas para explorar. O combate é muito mais profundo do que o primeiro Power Stone enquanto possui toda a sua estrutura.

Enquanto os personagens de PS1 possuíam diferenças sutis entre si que os faziam únicos, todos se mesclavam bastante por serem ainda mecanicamente similares demais, e por terem itens como um destaque tão formalizado. Aqui, todos eles são drasticamente variados e criativos, algo que devia ser padrão para um jogo de luta mas não era um foco de Power Stone.

O Light aéreo de muitos personagens lança um projétil, e ao ser realizado perto do chão, acaba sendo uma forma de lançar tiros em terra. Nami atira uma bola de raio, Wiper lança um tiro de canhão, Enel faz uma linha de energia concentrada. O finisher do combo Light do Usopp termina lançando projéteis, mas ou ele lança três em linha reta no mesmo oponente (combo garantido) ou três ao mesmo tempo espaçados para cobrir mais espaço em neutro ou acertar hazards/itens. De modo similar, do Anti-Air do Chopper você pode seguir para Light > Heavy e fazer um spike capaz de derrubar oponentes do cenário, ou apertar Heavy direto caso o oponente tenha bloqueado o primeiro golpe e agarrá-lo, então usando um spike em outra direção.

Grand Battle 3

Os specialties do Sanji e Luffy podem ser usados para lançar itens, tanto de forma ofensiva quanto defensiva. Já Smoker pode usá-lo para trazer itens para perto, ou mesmo oponentes! O Specialty do Wiper é uma rajada de chamas, assim como do Ace, mas o da Hina é um dos pouquíssimos confirms em Super do jogo, prendendo oponentes em algemas. O Anti-air > Heavy dela pode buffar esse golpe para prender por mais tempo!

Alguns golpes são excelentes em range, seja no eixo X ou no Y, ou mesmo nos dois! Já outros são excessivamente rápidos e ótimos para lançar em neutro. Smoker, Nico Robin, Chopper, Ace, Enel, Wiper, Crocodile e mais alguns outros todos tem command throws espalhados pelo moveset, mas a Hina tem DOIS e um deles funciona como uma solução para caso o oponente desvie do seu unblockable.

Embora todo Super seja um hit que leva a uma cutscene, alguns são especiais na sua ativação! Ambos Smoker e Shanks saltam rapidamente ao ativar um dos seus supers, desviando de golpes enquanto contra-atacam com assists próprios. Já o Chopper possui uma ativação que lança muitos projéteis bem espaçados que cobrem uma grande área. Fáceis de desviar, mas uma forma super segura de iniciar um golpe poderoso.

Talvez seja fácil perceber pelo quanto foram mencionados, mas eu sou apaixonada pelo jeito que Chopper e Hina funcionam nesse jogo; são dois dos personagens mais divertidos e recompensadores de aprender. Todos são construídos de forma única, alguns mais complexos como a Robin e outros mais simples como Zoro. No que se diz a ser uma sequência de ambos Grand Battle 2 e Power Stone, One Piece: Grand Battle! 3 é um jogo sem precedentes!

Grand Battle 3

Porém, eu estaria mentindo se dissesse que todos os meus pensamentos são elogios, longe disso. Esse jogo tem um grande elenco de problemas realmente relevantes. A começar pelo balanceamento… esquisito. Nem todos os personagens são feitos igualmente, nem todos os moves são balanceados da mesma forma. Golpes como o combo Heavy do Zoro inteiro ou o combo de Anti-Air Light da Nami simplesmente não funcionam e vão errar em qualquer ocasião. Alguns personagens são excessivamente fracos de forma absurda, enquanto outros são tão fáceis de usar e vencer que chega a ser estúpido. Eu digo isso antes mesmo de se aprofundar nas mecânicas!

É meio ensurdecedor o número de coisas que simplesmente não parecem possuir qualquer função no jogo. Luffy pode terminar seu combo com Gatling ou Bazooka, mas não há situação em que Bazooka é a melhor opção ou mesmo viável ainda que se transforme em unblockable ao carregar. Certas coisas não parecem terem sido testadas!

A barra do jogo, por mais competente que seja ainda é super estúpida na sua relação com Supers. A maioria dos Supers sequer vai conectar em um ser pensante e não podem ser adicionados a combos (pedindo que o jogador use itens para abrir uma janela viável no oponente), mas ainda que você erre, nem um pingo de barra é gasto. Você pode lançar quantos Supers quiser até um acertar, ou até a morte bater na porta. Para alguns personagens isso é insignificante, um Super que não acerta não vai ser melhorado por você poder continuar tentando. Mas um Super BOM como um projétil ou throw é INFINITAMENTE melhor quando pode ser usado quantas vezes você quiser. Não só isso faz o jogo ser uma espécie de pega-pega de quem vai acertar o Super primeiro, como faz da mecânica de renascimento completamente trivial.

Quando você morre possuindo todas as barras cheias, seu personagem vai voltar com zero de vida pra lutar um pouco mais. Isso te dá um motivo para não gastar barra quando você está prestes a morrer, pois é como uma última carta na manga que pode te salvar. Porém, ao não perder NADA por spammar Super, não existe medo em tentar golpear e mais vale dar muito dano em um inimigo do que focar nesse último ponto de vida. O problema não é a mecânica de renascimento ser fraca, e sim a de Super que não possui limites ou fraquezas!

Grand Battle 3

Outro problema grave são as fases do jogo, todas super caóticas e cheias de hazards que vão te matar antes mesmo de você perceber os danos chegando. Claro que isso é esperado para um jogo como esse, mas aqui eles pesaram a mão mesmo nessas armadilhas mortais e boa parte das fases não são divertidas nem casualmente.

E, já que gameplay casual foi mencionada, vale dizer que esse jogo não é muito atraente para seu público alvo. Ele tem um modo arcade, um torneio e coletáveis em forma de cartinhas bonitinhas. Só isso! Não tem o Adventure Mode de Power Stone 2, não tem itens e armas iradas pra fazer, não tem multiplayer de quatro jogadores, não tem minigames nem modos com regras absurdas e engraçadinhas ou mesmo um modo visual novel sequer. Só tem briga e porrada normal de jogo de luta! Até Power Stone 1 tinha mais brincadeiras pra quem não queria se aprofundar demais. O que restou para esse público que consiste quase toda a audiência do jogo?

No entanto, mesmo no reino competitivo, Grand Battle 3 não faz muito para se diferenciar dos seus colegas, não indo muito mais além do que ser Power Stone 1 melhorado. Ainda que seja um jogo bom, falta muito para realmente ser insubstituível e uma alternativa única para se aprofundar. Mesmo que o anime tenha personagens e poderes tão criativos, há pouquíssimos relances de ideias engenhosas no design dos movesets desse jogo. São divertidos de usar, mas poucos são realmente únicos!

Ainda que One Piece: Grand Battle! 3 esteja alguns bons passos a frente no estilo de Power Stone, esse não é o jogo certo para dedicar anos da sua vida aprendendo. Por mais que eu tenha jogado todos os modos e dificuldades e tenha desbloqueado todas as roupinhas e cartas colecionáveis do jogo, esse não é um título que eu juntaria uma galera no Discord para jogar. Porém, eu não vou fingir que não tenho ideia alguma do que me espera no horizonte.

Grand Battle 3

Grand Battle 3 pode não ter sido ainda a receita de bolo perfeita que todo fã de Power Stone merece, ou que todo fã de Arena Fighter anseia, ou que todo fã de One Piece precise conhecer, mas é um presságio. A era dos piratas está apenas começando, e as pessoas ainda acreditam nas lendas e superstições mundo afora. Se houver um tesouro nesse oceano, é só questão de tempo até alguém proclamá-lo. Falta muito pouco para nossos sonhos de vencer se realizarem!