Schrödinger’s Call — desabafos em direção ao acusmático | Análise

Schrödinger's Call — desabafos em direção ao acusmático | Análise

Em meio a uma infindável escuridão, a única certeza que seus sentidos conseguem te dar é o distante tocar de um telefone. Você atende? Afinal de contas, é a única coisa que você pode fazer em meio a falta de sentidos e de certezas que habitam todo o seu ser neste momento. 

O que aconteceu, inclusive? A rotina, a repetição; a vida estava acontecendo. Você tinha certeza que estava fazendo algo… Mas o que era exatamente? Pensando melhor agora, existem duas certezas em meio a escuridão que te rodeia: o incessante tocar do telefone e uma angústia que não parece querer largar de teu peito tão cedo.

O telefone continua a tocar e então você finalmente o atende. O sentimento de estar do outro lado da linha é familiar, a falta de sentidos parece se tornar familiar também, todas essas incertezas te fazem espiralar. Em algum momento sequer existiu algum você? Ou agora somos nós? É, nós parece melhor. Entretanto, em meio a este emaranhado de incertos e angustiados, uma voz se destaca.

A voz é familiar, um vago individualismo dentro de nós começa a se agarrar em meio as palavras que ela diz. Não só a emissora é familiar, mas o conteúdo também, é quase como se a angústia que ela relata sobre fosse a mesma que habita seu peito. Sim, o seu. A empatia te faz voltar a ser você. Sua voz volta a ser sua e então você assume o outro lado da linha.


Schrödinger’s Call

Schrödinger’s Call é o jogo de estreia do estúdio independente japonês Acrobatic Chirimenjako, publicado pela Shueisha Games. É uma visual-novel em que acompanhamos Mary, a última confidente do mundo. Como Mary conseguiu esse título? Sinceramente, nesse momento nem ela tem certeza disso. Schrödinger’s Call abre com nossa confidente percebendo estar em uma sala, sem memórias e com um único telefone tocando em sua frente. Antes mesmo que ela possa propriamente recuperar seus sentidos, Mary é abordada por Hamlet, um misterioso gato preto que habita esse espaço. Hamlet então nos explica, de maneira propositalmente breve e vaga, como chegamos naquela sala. A resposta você se pergunta, meu caro leitor? O mundo acabou.

Em Schrödinger’s Call vivemos um apocalipse repentino, a lua se chocou com o planeta terra de maneira tão imediata que boa parte da população do mundo ainda não conseguiu processar sua morte. E a isso agora cabe a Mary o trabalho de Última Confidente do Mundo, a responsável por ajudar os muitos espíritos perdidos no limbo a superarem suas angústias e apegos passados para finalmente passarem dessa para melhor.

Ao entender seu papel, por mais desnorteada que ainda esteja, Mary toma frente da situação e finalmente atende o telefone. Do outro lado da linha, entretanto, o que a espera não é alguém, mas sim todos os alguéns. Devido a grande concentração de almas perdidas no limbo, cabe a Mary fazer o trabalho de ajudar as pessoas a se individualizarem dentro dessa grande massa de angústias e lamentações. Como isso é feito? Através da empatia.

Sempre no primeiro contato de interagir com a grande espiral das lamentações (isso não é um título oficial dado pelo jogo, só um apelido divertido da minha parte) Mary vai ser questionada pela amálgama acerca de suas convicções. Como você decide viver sua vida, por você mesma ou pelos outros? O que é pior, se odiar ou sentir inveja de alguém querido? Apesar de Mary não ter plena noção de suas memórias e não conseguir responder com certeza, Hamlet a incentiva a responder baseado no que ela sente naquele momento. Através disso, certos espíritos acabam por simpatizar com Mary por compartilharem das mesmas angústias e convicções, os levando a se individualizar e assumir o outro lado da linha.

Encontrado o correspondente do outro lado, Mary passa a ajudá-los a recuperar suas memórias, entender suas mágoas e fazerem as pazes com seus assuntos não resolvidos. Assim os permitindo sair desse limbo de uma vez por todas.

A partir daí somos apresentados ao loop de Schrödinger’s Call: Encontramos nosso correspondente do capítulo, conversamos com ele neste primeiro momento, tentamos entender ao máximo sua história e então ouvimos a sua ligação não finalizada.

A ligação não finalizada é o que une todas essas almas perdidas no limbo. Enquanto a lua se chocava com o nosso mundo, todas essas pessoas se encontravam em um momento íntimo, em uma ligação telefônica interrompida pelo corte da linha vital de todo planeta. Mary, enquanto a Última Confidente do Mundo tem o poder de ouvir as ligações e então tentar desvendar como ajudar essas pessoas a resolverem seus assuntos inacabados.

A intimidade das ligações não finalizadas é traduzida para todos os aspectos de Schrödinger’s Call, uma vez que Mary realiza um trabalho minucioso e pessoal para cada uma destas almas perdidas. Por todos se encontrarem nesse limbo, seja dentro da amálgama de lamentações ou individualmente, eles não tem ninguém com quem se comunicar além de Mary, o que a leva a cuidadosamente analisar cada relato dado, cada desabafo dito e então entrevistar pessoas importantes para aquela alma que ainda não realizou sua devida passagem, decidindo o que trazer e o que não trazer para seus correspondentes. 

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Toda essa investigação acerca das almas é fielmente documentada por Mary em seu caderno de anotações. Com o decorrer de cada capítulo em Schrödinger’s Call, todas as relevantes são registradas junto de ilustrações de como ela enxerga a situação, afinal de contas, são apenas palavras através de uma linha telefônica. Traz um flavor visual muito interessante tanto para história quanto para a construção de personagem de Mary.

No geral, Schrödinger’s Call é realmente um excelente exemplo do que é o visual em visual-novel. Sua estética inteira te deixa boquiaberto até em momentos simples. Quando eu era criança, e até hoje em certos momentos sendo bem sincero, eu tinha o costume de, ao fazer uma ligação, fechar os olhos e ouvir o tocar da chamada numa completa escuridão, visualizando apenas como aquele barulho era na minha cabeça. Schrödinger’s Call me deixou nostálgico ao utilizar exatamente o mesmo tipo de imagética que permeava minha mente nessas distantes lembranças.

E isso porque eu estou falando de momentos simples da estética do jogo. Quando vamos falar de momentos chaves ou das ilustrações dos personagens, a barra sobe para níveis estratosféricos! Como no momento em que Hamlet nos explica sobre todas as almas perdidas e que estamos vivendo os últimos vinte e um nanossegundos antes do, agora inevitável, fim do mundo e sua perfeita sobreposição entre a vida e a morte.

Ou nas célebres ilustrações de personagem que simulam de maneira exuberante os aspectos de desenho em nanquim. Além de carregarem um charme inigualável nas expressões de cada personagem, as sutis representações de melancolia e certeza acompanham de forma única cada uma dessas almas presentes em Schrödinger’s Call. É surreal.

Tudo isso junto de uma trilha sonora que reflete de maneira excelente o caráter intimista de Schrödinger’s Call. A equipe sonora de Acrobatic Chirimenjako sabia exatamente como saltar dos momentos de mais baixa energia — trabalhando uma atmosfera onírica acompanhada de visuais completamente abstratos — até os de energia mais explosiva — representando os conflitos emocionais intensos vividos pelas almas angustiadas.

Dito isso, é importante ressaltar uma questão: Schrödinger’s Call é vendido como uma espécie de jogo investigativo, e eu achei esse aspecto não muito bem desenvolvido. Em muitos momentos, Schrödinger’s Call parece ter medo que o jogador não tenha entendido muito bem coisas que ele acabou de ver e aí os repete de maneira maçante. Não sei se a ideia é poder situar jogadores que tenham pausas de horas entre certos pontos do jogo, mas fora dessa hipótese? Existe claramente um certo receio em confiar no jogador.

Mas para além disso? Acredito que Schrödinger’s Call é uma ótima introdução para quem quer adentrar no gênero de visual novel. A premissa é cativante e a narrativa comovente é apresentada majoritariamente em primeira pessoa. Desse modo, é uma transição mais acessível para aqueles que não estão acostumados com as narrativas mais “tradicionais” de visual novels, além do show visual que torna a experiência incrivelmente dinâmica. Toda ambientação criada pela estética caminha de maneira harmoniosa com a trilha sonora e ambas se potencializam constantemente, criando momentos realmente memoráveis.

Schrödinger’s Call já se encontra disponível para PC e Nintendo Switch.

Acusmático, a verdade através do som “falso”

No ramo do som, em especial no teatro e no cinema mas em alguns setores da música também, existe a divisão do som diegético e do som acusmático. O som diegético é o que existe em cena, aquele som de escapamento quando você vê uma moto passando, por exemplo. Já o som acusmático é o que não existe na cena, como a música daquele momento épico e dramático que não necessariamente está lá, mas que encaixa perfeitamente. Enquanto eu jogava Schrödinger’s Call, o termo do acusmático era algo que não saía da minha cabeça.

Para aqueles que não sabem, este termo surgiu, supostamente, na Grécia antiga durante as aulas de Pitágoras para seus discípulos. Nessas aulas, ele se esconderia atrás de um tecido, impedindo que os alunos o vissem e que assim absorvessem o conhecimento de forma mais “pura”.

O grande ponto que pretendo desenvolver aqui é: Há pelo menos um século o mundo se tornou um lugar extremamente acusmático.

Apesar da longínqua existência do rádio e do telefone, sob nossa perspectiva nos últimos cem anos, a história nos prova que isso na realidade é algo extremamente recente. E é aí que entra essa questão: quando foi que se tornou tão fácil nos abrir para o que não vemos, para o que essencialmente não conhecemos?

Schrödinger’s Call para mim é um comentário muito claro sobre conexões. O mundo acabou, não existe mais depois, não existem mais possibilidades. Existimos com nossas angústias e ponto. Diante disso, o que podemos fazer? A resposta de Schrödinger’s Call está em seu título, pois qual o elemento mais importante de uma ligação telefônica senão a conexão entre duas linhas?

Entretanto, até que ponto estamos dispostos a nos conectar verdadeiramente? Diante do alto fluxo de informação que temos em nossas vidas, nos enganamos que não precisamos de fato nos conectar, somos auto suficientes e podemos selecionar tão a dedo nossas conexões que muitas vezes acabamos por não selecionar nenhuma. Nossa suposta imagem de autossuficiência acaba por nos envenenar e nos permitir espiralar cada vez mais em autodepreciação, ansiedade e angústia. E isso é uma realidade que Schrödinger’s Call quer falar sobre através das sessões de “Espiral de Sentimentos Negativos”, onde o correspondente atual do capítulo se vê preso em uma corrente de depressão e ansiedade que o impede de fazer qualquer tipo de pazes consigo mesmo.

Schrödinger’s Call é uma obra muito inteligente e sensível em como ela escolhe abordar esses tipos de assuntos. Não me parece nada acidental o contraste no colorimento do jogo ao fazer todos os personagens serem monocromáticos e dedicar exclusivamente o uso de cores ao ato da comunicação. Seja aos fundos que vão ficando progressivamente coloridos ao permitir que as almas se abram com você ou nos momentos de maior intensidade, nas trocas de argumentos durante as espirais negativas ou durante as chamadas não finalizadas. Fora as ideias exploradas entre verdades, mentiras e o que decidimos levar para nossas vidas ou não.

Schrödinger’s Call é uma obra sensível que te faz se questionar bastante sobre como nos apresentamos na vida das pessoas e o que escolhemos deixar para elas ou não. Não somente isso, mas o contrário também desses impactos e conexões que recebemos em nossas vidas. Não à toa que isso chega a ser uma temática central na reta final do jogo.

Acrobatic Chirimenjako realmente soube tocar os temas certos enquanto escrevia Schrödinger’s Call e se você realmente quer entender o porquê disso, a única maneira é se abrir e se permitir às palavras e temas de uma conexão telefônica que você talvez nunca veja de fato em sua vida.