Julián Cordero e Sebastián Valbuena, os criadores de Despelote, o descrevem como “um jogo de futebol sobre pessoas”. Lançado no início de maio de 2025, ele busca um rumo diferente de outras franquias de jogos dedicadas ao esporte como EA FC (antigamente FIFA) e eFootball (antigamente PES). As lentes de Despelote desviam da competitividade e do realismo para contarem uma história semi-autobiográfica próxima do coração de seus desenvolvedores.

Em 2001, o Equador estava indo mais longe do que nunca nas qualificatórias para a Copa do Mundo FIFA de 2002. O futebol ganhava popularidade diariamente, e o papo nas ruas e nos jornais era interrompido para falar das chances do Equador entrar no Campeonato.
Nosso protagonista, o próprio diretor e programador Julián, é uma criança com dificuldades de concentração em aulas e uma paixão crescente pelo esporte. Experienciamos os dias de cada partida das qualificatórias pelos olhos do garoto, que vive seus momentos formativos nas ruas de Quito. A Copa é uma moldura a esta história, não seu ponto focal.

Os visuais de Despelote são intensos. Pessoas e objetos interativos são desenhados com um estilo minimalista preto e branco enquanto os ambientes seguem apenas o preto a ser contrastado com uma cor principal, que muda de capítulo em capítulo. Existem, sim, ambientes modelados em 3D. Porém, além de seguir referências fotográficas de Quito à risca para representar os locais com a maior verossimilitude possível, há uma mescla de escaneamento 3D que confere relevo aos ambientes, junto de uma demão pesada de pós-processamento.
O intuito das escolhas visuais é realçar o aspecto de memória. Este é um passado ficcionalizado, mas muitas dessas ainda são memórias de Julián que se esvaíram com o passar dos anos. A impressão que resta dos locais na memória ainda é presente no contraste imenso, mas a cacofonia de cores normalmente presente em uma cidade é deixada de lado com os fundos e pessoas monocromáticas.
A trilha sonora também é de Sebastián que, junto da captura e direção de som de Ian Berman, esbanjam um palco sonoro rico, vívido e romântico; desde o quicar de bolas e o rolar de garrafas até os sons ambientes que compõem Quito.

Boa parte dos momentos jogáveis de Despelote são ditados por um limite de tempo: quando a mãe de Julián o deixa no parque enquanto vai buscar algo, ele tem duas horinhas para brincar por aí — com o que, fica ao critério do jogador. Você pode passar um tempo vendo a partida do Equador contra a Argentina, representado com imagens reais arquivadas, brincar de encher o saco do professor jogando bola com os amiguinhos, transformar objetos inesperados em bolas improvisadas, tacar gravetos em tudo o que é derrubado, ver um pouco da qualificatória do Equador em andamento, ouvir um músico tocando no parque, explorar os arredores ou puxar papo com todo adulto que queira ouvir seu “hola”, dos mais chatões que te empurram aos amigáveis. Caçe fofocas! Chute bolas!
Quando Julián se diverte, o tempo passa mais rápido, e assim o gerenciamento de tempo se torna imprevisível. Assistir TV ouvindo seus avôs é agradável, mas o Julián criança quer muito mais jogar bola! Seus limites são apropriadamente definidos por adultos, que vão meter uma grande bronca no garoto se ele não tomar a cautela necessária. Essa dilatação de tempo junta do limite reforçam que este é apenas um recorte, uma amálgama de memórias recordadas pela metade e remendadas numa reimaginação interativa.

A experiência de Despelote captura a autenticidade do dia a dia. As pessoas falam umas em cima das outras; seus diálogos fluem incessantemente enquanto Julián se distrai, preocupado com alguma outra coisa. Logo no primeiro momento do jogo, você controla um Julián completamente vidrado em um videogame de futebol na sala enquanto seus pais conversam sobre a performance do Equador nas qualificatórias. Sua atenção fica dividida entre aprender os controles do jogo-dentro-do-jogo e ouvir a conversa dos pais, que eventualmente interrompem a sua jogatina digital para verem a partida ao vivo na televisão.

De forma similar a, por exemplo, Boku no Natsuyasumi, Despelote tem mais do que a experiência de uma criança a explorar: os adultos à sua volta discutem assuntos sérios, preocupações, e eventos bem menos sorridentes que os compreendidos pelo pequeno Julián. Em 1999, o Equador estava em plena crise, mesmo após a tentativa desesperada de trocar a moeda para o dólar. A posição econômica de Julián é retratada como uma de relativo privilégio, que o permite crescer em paz e brincar na rua despreocupado.
As poucas vinhetas que vemos do Julián mais velho são mais agridoces. As partidas mais sérias da escolinha de futebol onde praticava, e sua experiência numa festa onde ele se embebeda e taca o terror de maneira não tão dissimilar de quando era criança, mas com reações muito mais mistas das pessoas que o cercam. O futebol, em sua vida adulta, ainda é uma paixão. Não existe a necessidade de uma partida formal ou sequer uma pelada, pois só alguns chutes já são suficientes para ele.

Despelote caminha de memória para diário, de diário para reportagem, de reportagem para mentira, e de mentira para digitalização. Julián deixa claro que as lentes pelas quais seu jogo vê Quito são rosadas; na vida real, ele tinha quatro anos e não oito. No dia 7 de novembro de 2001, o time do Equador se qualificou para a Copa do Mundo numa partida contra o Uruguai. No jogo, ele tem prova. Ao terminá-la, ele corre para casa com o intuito de assistir a partida. No caminho, o parque em que passa seus dias no jogo está vazio.
No chutar de uma bola, o jogador é imediatamente transportado para um escaneamento digital cru do Parque La Carolina, onde as texturas são largadas em cima das superfícies com relevos inconsistentes e extrusões quebradas. Esta é a digitalização sem filtro, o resultado bruto trazido pela captação de um local do real ao digital. Ainda o jogo, mas não a narrativa.Todas as cores estão presentes.

Você está jogando sem interrupções com o mesmo personagem, o Julián. Mas, ali, você não é o Julián do jogo, e sim um avatar do real Julián, o narrador e diretor de Despelote. Naquele momento, o papo é sobre o desenvolvimento do próprio jogo que está no ato de jogar. De alguma forma, parece menos real do que a fantasia de hiper-realidade do resto de Despelote.
Como o trocadilho de seu título insinua, este é um jogo bagunçado. Uma tentativa de Julián localizar a gênese de seu amor pelo futebol, e de canonizar os momentos de sua vida onde mais sentiu uma conexão entre sua si, sua família, amizades, e o esporte. O país em que vivia, o momento onde cresceu; o que deixou para trás. A ausência de uma forma rígida e constante do jogo, mesmo em todas as editorializações feitas nas narrativas, é a única maneira de deixar claro que Julián ama a sensação de chutar uma bola.

Uma cópia de Despelote para Nintendo Switch foi concedida pela Panic para análise no Recanto do Dragão.


