O Scott Pilgrim é literalmente eu cara, você tem que entender.
Provavelmente eu e muitos outros otários com 13 anos
Essa talvez seja a máxima que mais permeia qualquer discussão sobre o Leviatã da indústria de quadrinhos canadense, Scott Pilgrim, seja de maneira irônica ou não. Entretanto, apesar de seu status, Scott Pilgrim não está imune a passagem do tempo, e tendo em mente todas as mensagens da obra e a relação do seu autor com a mesma, talvez essa seja a coisa mais bonita que poderia ter acontecido e por consequência trazido Scott Pilgrim EX ao mundo.
Caso você não conheça a obra, um breve resumo para você, meu caro leitor: Scott Pilgrim é uma série de quadrinhos que acompanha o titular protagonista Scott Pilgrim. Um candango de 23 anos perdido na vida que passa seus dias tocando em uma banda com seus amigos, tendo um caso com uma menor de idade e sendo bancado pelo seu melhor amigo/colega de quarto gay. Conformado com uma vida medíocre, tudo acaba por se abalar quando Scott encontra a recém chegada em Toronto, Ramona Flowers. O encontro leva Ramona e Scott a saírem, enfrentarem problemas do passado e presente de ambos para amadurecerem como pessoas em busca do que em tese seria um amor verdadeiro.

O resumo foi extremamente breve e esdrúxulo porque se você está no Recanto do Dragão, o melhor site de games do UNIVERSO, é meio impossível você não saber ao menos do que se trata Scott Pilgrim. A obra abraça muito a influência do universo gamer, e não só abraça como a incorpora em sua realidade. Scott Pilgrim consistentemente se enxerga como um protagonista de videogame e por consequência pauta tudo ao seu redor em muitas lógicas, regras e pastiches de jogos eletrônicos.
Com todo esse apreço pelo universo gamer, era um fato de que em algum momento a franquia, que já era um projeto multimídia contando com quadrinho, animação e live-action, iria finalmente se tornar num jogo eletrônico de fato. O curioso é que essa já é a segunda vinda desse tipo de adaptação.
Scott Pilgrim EX
Scott Pilgrim EX é um beat ’em up 2D desenvolvido pelo estúdio canadense Tribute Games. O jogo conta com uma estória completamente original envolvendo gangues lutando pelo controle de Toronto, ex-namorados reformados pelo poder da terapia, viagens no tempo e MUITO fanservice.
A premissa gira em torno do ataque de Metal Scott a Scott Pilgrim e seus amigos. Após o misterioso clone metálico sequestrar todos os membros da Sex Bob-Omb, com exceção de Scott e seus instrumentos, o vilão os espalha em diferentes pontos do espaço-tempo. Cabe a Scott, Ramona e parte de seus exes enfrentarem as gangues que rondam Toronto recuperando seus amigos e instrumentos a tempo para o grande show da Sex Bob-Omb.

A gameplay é bem típica do gênero, você se movimenta em oito direções, pode pular, usar ataques fortes ou leves, agarrar inimigos, se defender e a partir das combinações de todos esses comandos criar combos para lidar com as hordas e hordas que vem em sua direção. Além disso, o jogo conta com o mesmo sistema de level up de seu predecessor, onde jogar mais com um personagem vai fazer com que o mesmo acumule experiência, suba de níveis e fique cada vez mais forte para lidar com a progressão de dificuldade de seus oponentes.

Uma das novidades que faz Scott Pilgrim EX ter mais substância que o último título é o sistema de equipáveis. Além da progressão por acúmulo de experiência, Scott Pilgrim EX também conta com três categorias de equipamentos: Acessórios, Insígnias e Assistências.
Os acessórios são itens que podem trazer aumento e/ou redução de um ou mais status atrelados ao seu personagem. Insígnias são mais parecidas com como elas funcionam em Paper Mario, por exemplo, onde elas podem adicionar efeitos/habilidades especiais quando equipadas ao personagem jogável; enquanto as Assistências são ataques especiais onde você pode chamar alguém do charmoso elenco de personagens de Scott Pilgrim para te dar uma força em troca do seu GP (a mana do jogo).
Com tudo isso em mente, mesmo usando um personagem com uma certa especialização em seu moveset, você é capaz de customizá-lo para qualquer tipo de situação ou estilo de jogo preferível, tornando cada combinação numa experiência única.
Seguindo nessa linha de personagens, não seria um excelente beat ’em up sem um elenco marcante de personagem jogáveis. Scott Pilgrim EX subverte um pouco as expectativas por, ao invés de focar no já amado núcleo de amigos de Scott, optar por dar ênfase aos recém-desenvolvidos exes de Ramona Flowers pelo show Scott Pilgrim Takes Off. Com isso, as opções de personagens para se jogar são:
- Scott Pilgrim (um personagem balanceado em todas as áreas, não muito rápido, nem muito lento, mas sempre muito forte)

- Ramona Flowers (uma personagem com ataques poderosos e gimmicks especiais de movimento)

- Matthew Patel (um personagem com ataques físicos de longo alcance e a possibilidade de criar pontos de dano no mapa com suas meninas do inferno)

- Lucas Lee (um personagem enorme com ataques pesados, lentos e arrasadores)

- Gideon Graves (um atacante com combos rápidos e constantes para pressionar um único alvo)

- Roxie Richter (uma rápida ninja capaz de efetuar combos frenéticos e com grande área de alcance)

- Robot-01 (não necessariamente um ex do mal, mas nosso robozinho favorito com um amplo arsenal de ataques a distância)


Entretanto, o que mais destaca Scott Pilgrim EX em comparação ao restante do gênero de beat ’em ups, particularmente seu antecessor, é a liberdade de progressão similar a de um metroidvania. Scott Pilgrim EX descarta a fórmula de níveis tão associada ao gênero e opta por usar um mapa livre quase-que-irrestrito ao jogador no momento que você terminar o tutorial e a primeira luta contra o Metal Scott.
Certamente o jogo ainda tem uma progressão marcada. Não é à toa que existe uma ordem de chefões a serem enfrentados e de lugares a serem descobertos, porém a beleza desse mapa livre mora menos na liberdade absoluta em poder fazer tudo na ordem desejada, e mais nos pequenos detalhes que se escondem na progressão fixa deste enorme mapa, nas idas e voltas de lugares “já conquistados” e nos segredos por lá escondidos.

Scott Pilgrim EX é LOTADO de segredos, desafios extras para upgrades opcionais e de pequenos momentos de fanservice para os que têm olhos mais atentos. Sejam esses NPC’s que se escondem em casas específicas, ou outros amigos de Scott que ficam trocando de lugar e desbloqueando novas linhas de diálogo conforme o decorrer da sua jogatina.
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Falando sobre o decorrer da sua jogatina, vamos falar um pouco de como o jogo trabalha sua dificuldade. Scott Pilgrim EX é um jogo extremamente pautado em seu co-op, o que talvez seja uma observação um tanto redundante para um jogo dentro do gênero de beat ’em ups. Mas é importante enfatizar isso porque muito das filosofias de design das lutas de chefe são pensadas em você ter mais de um jogador presente; não no sentido de que o jogo seja incapaz de ajustar sua dificuldade para o número de jogadores presentes, pois ele adapta sim a densidade das hordas de inimigos para equilibrar o desafio proporcionalmente. Porém, em um certo ponto do jogo, todos os bosses passam a ter um ataque que os permite se dividir em múltiplos chefões que agem de maneira independente, o que pesa bastante caso você esteja jogando sozinho. Eu me vi obrigado, depois de certo ponto, a convidar um colega para jogar comigo porque estava insuportável lidar com esse tipo de confronto.
E com isso dito, é necessário constatar outro fato: a experiência é mil vezes melhor quando jogada com um amigo. Não somente pelo equilíbrio que isso traz para a abordagem que Scott Pilgrim EX espera que você tome, mas também porque isso contribui para o caos generalizado visual que esse jogo ama fazer. Existem muitos momentos em que você não vai ter ideia do que tá acontecendo na tela devido às manadas inacabáveis de inimigos e a sua força em lidar com todos eles ao mesmo tempo. Se isso é algo incômodo, fica mais ao seu critério como jogador, mas que é proposital pelo jogo? É.

Constatando outro fato também, Scott Pilgrim EX é um espetáculo audiovisual como qualquer uma das mídias que compõem a série. Anamanaguchi retorna para compor a trilha sonora e faz um trabalho curioso; a banda amadureceu muito na última década e evidentemente consegue entregar um trabalho vasto para compor o mundo de Scott Pilgrim EX, variando desde o chiptune explosivo que caracterizou seu trabalho nos anos 2010 até tracks mais atmosféricas e modernas que refletem o tom que o grupo decidiu adotar em seus últimos álbuns.
possivelmente minha faixa favorita do jogo
Sobre a parte visual, esse é um caso curioso, já que esse sempre foi o grande forte dos jogos da franquia, deixando Scott Pilgrim EX com uma grande expectativa para cumprir, já que seu antecessor ainda é um jogos 2D mais bonitos que agraciou a sétima geração de consoles. Scott Pilgrim EX honra seu predecessor, mas sem necessariamente trilhar o mesmo caminho que ele. Óbvio, o jogo ainda segue com uma estética “chibi”, mas opta por um estilo de geometria mais quadrada em comparação aos chibis mais redondinhos e fofinhos de Vs The World: The Game. Os sprites são maiores, permitindo você ver mais detalhes, serem mais expressivos (o que é incrível quando comparado com um jogo que já era terrivelmente expressivo) e no geral causando mais impacto em suas animações.
Scott Pilgrim EX é definitivamente algo que reacende com louvor as chamas do gênero de beat ’em ups. Apesar do gênero ter entrado em uma espécie de “estagnação” após Castle Crashers e só passar a ter esperanças de um retorno triunfal com Streets of Rage 4, são jogos como Scott Pilgrim EX que realmente trazem esperanças para esse retorno triunfal. Muitas opções de personagem, customização, sem grandes tropeços em sua progressão, segredos para todos os cantos, finais alternativos e uma história que é capaz de cativar os mais nerds da franquia até as pessoas que só viram o live action.
Uma cópia gratuita de Scott Pilgrim EX para PC foi concedida pela [] para análise no Recanto do Dragão.
Uma nova era
É por isso que Scott Pilgrim acaba. Se eu ainda estivesse trabalhando em Scott Pilgrim daqui à dez anos, eu estaria morto por dentro.
Bryan Lee O’Malley em seu blog pessoal
Dizer que Scott Pilgrim foi um fenômeno estrondoso em 2010 ainda parece de certa forma um eufemismo. Uma franquia multimidiática com jogos, live-action e animação da Adult Swim, tudo isso vindo de um autor independente que até então só tinha publicado um quadrinho solo extremamente emocional… quais eram as chances? E estrondoso não foi apenas o sucesso, mas bem como as pressões que vieram com isso.
A sensibilidade de Bryan Lee não é visível apenas em sua escrita, mas também em suas referências. Apesar de Scott Pilgrim ser em um nível superficial o puro suco de mangá shounen suas referências são pautadas em obras extremamente sensíveis como Nana e Revolutionary Girl Utena, diabos o seja o mangá shounen que Bryan mais se inspira é Ranma ½, essa sensibilidade é o que dá a profundidade especial que só Scott Pilgrim tem.
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Porém, escrever esse tipo de história com tamanho peso emocional a longo prazo sempre acaba virando uma espécie de mártir para o autor, Nana sendo o exemplo primordial disso. Tanto que Bryan Lee admite que antes dos últimos dois volumes já estava completamente perdido e acabou se forçando a formular uma espécie de ponto zero, onde ele conseguiria amarrar as pontas necessárias e dar o desfecho emocional que a história desesperadamente precisava.
Com o último volume sendo publicado em 2010, Scott Pilgrim pode descansar por uma boa década, voltando apenas para eventuais cameos em outros quadrinhos, como foi em Repeteco. Entretanto, isso muda em 2020 quando Bryan Lee aceita a proposta de trabalhar em uma nova adaptação em animação para Scott Pilgrim.
O curioso deste caso é que todos os envolvidos no projeto realmente queriam fazer uma adaptação à risca dos quadrinhos, enquanto a ideia de simplesmente fugir do material base veio justamente de Bryan Lee. E apesar de todas as polêmicas que isso trouxe, revela um lado íntimo da relação que o autor tem com sua criação mesmo dez anos após sua conclusão e exaustão com a mesma. É quase um paralelo do que acontece com Rumiko Takahashi (autora de clássicos como Inuyasha e Ranma ½) e Mamoru Oshii (Diretor responsável pela primeira adaptação de uma das obras de Rumiko e por filmes como Ghost in the Shell), só que uma versão boa. Enquanto no caso de Rumiko acabou que ela não pode ter a adaptação perfeita que ela tanto sonhava, mas que ainda o tempo a inocentou com as adaptações de Urusei Yatsura pela David Production, pois Mamoru Oshii estava ocupado demais brincando com esses personagens e os dando momentos que ele acreditava interessante para os mesmos, no caso de Bryan é como se essas duas pessoas se incorporassem nele mesmo separados apenas por esses dez anos de respiro com sua obra.

Dez anos depois, Bryan Lee finalmente pôde olhar para esses personagens que representavam tanto peso emocional para ele e brincar com os mesmos, tendo outras situações e outros olhares para eles sem ter que se prender à rigidez de uma única publicação seguida e coesa. Scott Pilgrim Takes Off é inteiramente sobre isso, uma outra Ramona tendo que lidar com os mesmo problemas emocionais, mas agora os confrontando de forma ainda mais direta e nos dando mais ênfase à sua história com esses sete exes, além de um novo Scott Pilgrim tendo que lidar com a literal má interpretação de texto da própria história que teoricamente já havia o redimido e desenvolvido há mais de dez anos atrás.
Esse novo suspiro é praticamente a fundação mais sólida de Scott Pilgrim EX. Apesar de ainda ser um beat ’em up e manter muito do mesmo “teor mecânico” de seu predecessor, muito da explosão juvenil da Ubisoft que desenvolveu o primeiro jogo acaba saindo para dar espaço a um olhar mais velho e mais preocupado em enfatizar outros lugares. Lugares como uma Toronto mais viva, com comércios envolvendo rostos familiares e novos, para personagens que agora falam e expressam como se sentem em relação uns aos outros, para exes que têm mais vida, mais objetivos e mais opiniões fora dos seus conflitos dentro da Liga dos Ex-Namorados do Mal. Até a gimmick de viagem no tempo e encontrar antepassados e descendentes dos personagens desses quadrinhos representa a ideia central.
O Scott Pilgrim extremamente emocional, bem escrito e com todas as suas tribulações e desenvolvimentos que arrasou o mundo dos quadrinhos nas primeiras décadas dos anos dois mil sempre vai estar lá, em sua preciosa vidinha, em seu precioso quadrinho, na sua preciosa estante. O que vier depois disso é algo novo, algo que não precisa se prender a tudo isso; é refresco para o autor e refresco para aqueles que se permitem respirar os ares de uma nova era.

Uma cópia de Scott Pilgrim EX para PC foi concedida pela Tribute Games para análise no Recanto do Dragão.


