Quando a Auroch Digital anunciou Starship Troopers: Ultimate Bug War! eu fiquei bem animado, mas com alguns medos. Primeiro foi o fato de venderem um boomer shooter com o tema de Warhammer 40k, conhecido como Warhammer 40k: Boltgun, um bom jogo mas que esperava mais das mecânicas e principalmente level design. Então infelizmente não foi um jogo excelente para mim mesmo com a skin de Warhammer 40k por cima.
Outro é o jogo da The Artistocrats, Starship Troopers: Terran Command, um RTS com foco em singleplayer, que dessa teve mecânicas muito boas e no geral foi um jogo muito bom, mas a parte narrativa foi bem fraca considerando que tentam mais replicar o primeiro filme do que fazer algo realmente original. Dito isso tudo, fico feliz em informar que Starship Troopers: Ultimate Bug War! foi uma bela surpresa!

Primeiro vamos voltar um pouco. Starship Troopers é um filme de 1997 dirigido por Paul Varhoeven, muito conhecido pelo seu trabalho em Robocop. O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito por Roberto A. Heinlein. Enquanto o livro serve como uma base para demonstrar que militarismo é uma escolha de governo correta, com inúmeras passagens ambientadas nas salas de aula falando sua ideologia através desse romance de ficção científica, o filme trás uma abordagem diferente: uma sátira a essa idelologia que mostra os problemas e a lavagem cerebral que pode radicalizar vários jovens facilmente a este mundo fascista militar. Um grande contraste com o livro, que via isso como uma solução para os ‘problemas’ da época.

Tanto o filme quanto o livro foram incrivelmente influentes na cultura pop. Onde você vê insetos gigantes e soldados descendo em drop pods com armaduras fortes existe uma grande chance de ter sido influenciado por eles. E como o filme trouxe uma imagem tão marcante com designs, frases de efeito e cenas violentas de guerra, temos como fazer jogos com isso. Afinal já temos Starcraft, Halo, Fallout e vários outros que já foram influenciados pelo mesmo.
Anteriormente tivemos dois jogos de Starship Troopers. Starship Troopers: Terran Ascendancy, um RTS tático que se passa no universo, e o FPS Starship Troopers (2005). Ambos jogos ok, mas com muitas falhas. Tentavam mais pegar um pouco do que estava famoso no momento. E ai nada foi visto, até que em 2022 o antes citado Starship Troopers: Terran Command foi lançado, e em 2024 Starship Troopers: Extermination saiu do seu Early Access, um FPS em grande escala que se passa no universo. Ambos jogos ótimos que trouxeram a chama de que se pode fazer um jogo bom deste universo.
E agora vamos finalmente para Starship Troopers: Ultimate Bug War! um FPS com gráficos emulando um estilo retro, onde controlamos a Sammy, uma soldada condecorada no governo da federação, e jogaremos pelos seus feitos.
Primeiramente, tenho que dizer que algumas coisas me pegaram de surpresa e foram uma excelente escolha de tom. O jogo se passa no universo de Starship Troopers, como se ele realmente existesse lá, o que jogamos é uma propaganda feita para recrutar mais soldados. Existem partes durante a narrativa onde eles dizem explicitamente que a missão não será igual realmente foi, pois existem algumas coisas que não podem ser reveladas, e após uma revisão da federação lançaram essa missão com alguns nomes e eventos alterados.

Essa parte toda do jogo constantemente parar para fazer propagandas absurdas e ficar condecorando o jogador para “se alistar e se tornar um cidadão” é um acerto muito certeiro no centro nervoso do tom do filme de sátira. Inclusive, as cenas com atores reais conversando, incluindo nosso grande Casper Van Dien que atuou no filme original como o protagonista Jonny Rico, e a Charlotta Mohlin de Immortality para Sammy (ou Major Samantha Dietz), que se encaixa perfeitamente no papel e em toda a atmosfera exagerada do universo.

No jogo vemos algumas batalhas que ela lutou onde ela pretende se vingar de seu amigo morto por um inseto diferente o Assassin Bug. Então toda a narrativa gira em torno dessa vigança, e para isso ela precisa passar por alguns lugares para conseguir informação para caçar o inseto. Durante o jogo, somos constantemente ajudados por rádio pela pilota de seu esquadrão, o que ajuda a ter mais interação entre os personagens e desenvolvê-los.
As nossas missões são interessantes, passamos pela famosa batalha em Klendathu e o planeta P, vendo não só os momentos dos filmes, como também as consequências deles. Mas também temos locais ‘exclusivos’, como uma destruída Buenos Aires sendo atacada por insetos. Então, em termos de variedade de locais, é bem interessante.

Quando começamos, temos até o treinamento básico com todos momentos icônicos do filme, como os inimigos de verde, e o jogo de laser tag. E sinto que tudo funciona muito bem; não como um fanservice, mas sim como propaganda militar dentro da história do jogo. É óbvio que vão trazer essas coisas, afinal, são marcantes até para a Federação. É uma justificativa boa para nostalgia e aparecem tempo suficiente para não roubar os momentos únicos do jogo, como as locais ou até mesmo esse inseto diferente.
Na parte gráfica, além dos ambientes bem feitos e variados, temos os gráficos tentando replicar aquela estética retrô que, de novo, faz sentido! é um jogo feito na federação e o filme é de 1997. Então tem um ar de antigo tentando simular o novo. Tudo é feito em 3D, lembra um Voxel refinado mas os soldados nos campos de batalha serão sprites parecidos com jogos como DOOM, Duke Nukem 3D, dentre outros.

Já no som, não temos muito o que dizer, os atores de voz são muito bons, e temos os sons originais dos filmes (sim, doS filmeS), que já eram marcantes. Eles aumentaram um pouco o som das armas para trazer mais impacto, o que funcionou e não me incomodou, considerando que os sons dos insetos são mais marcantes do que das armas.
E assim podemos falar da jogabilidade. Cada fase é uma zona aberta, onde você escolhe a ordem que faz as missões disponiveis naquela área, passando por uma cena de guerra, vendo vários insetos e soldados lutando onde quer que vá de uma forma bem sandbox e dinâmica. Você pode até recrutar quatro soldados para ficarem próximos a você, mas não funciona muito bem. O legal é que eles tem várias frases enquanto estão lutando, seja para morrer ou matar. Muitas delas são cômicas, mas também temos frases referenciando o filme, e como é algo de fundo é bem tranquilo e não tira atenção do que está acontencendo.

Aqui podemos carregar duas armas e algumas têm dois tipos de disparo. Todas armas que testei são boas e fazem seu trabalho, e mesmo com muuuitos insetos e uma variedade enorme, vindos de outros filmes e jogos, temos que focar nos pontos fracos deles. Não temos muita munição, mas podemos pegar dos nossos amigos mortos, em caixas espalhadas pelo mapa, ou até chamar um drop pod com suprimentos que falarei melhor quando falar das missões. Então o combate é intenso e variado o suficiente para esse sandbox não cansar nos 20~, 25~ minutos que passará em uma fase.

Sempre que for fazer uma missão, várias outras pequenas ativam, e muitas você pode só sair e ir fazer outras. Existem algumas de defesa que não permitem você sair até cumprir. Algumas missões achei que ficariam repetitivas, já que duas fases seguidas tiveram o mesmo estilo, mas como eles variam os inimigos que vemos, elas não ficam cansativas. Por exemplo, em uma missão de defesa, eu defendi contra Tigers e os Warriors, mas em outra tive que enfrentar dois Tankers; Como falei antes, também chamamos os drop pods para recuperar munição e vida. Porém, a cada missão cumprida, esses drop pods são automaticamente atualizados, trazendo mais armas fortes e até a possibilidade de chamar artilharia, bombardeios, postes de eletrecidade para fritar os insetos ou um Mecha para nos ajudar. E inclusive, durante essas missões, podemos encontrar Mechas para nos ajudar a locomover pelo mapa, por mais que limitados por tempo.
Para melhorar, esse drop pod de ajuda só pode ser usado ao ser carregado, que acontece quando você mata inimigos, além de ter que esperar ele cair e os insetos podem ir até ele e destruí-lo deixando, só alguns suprimentos no chão. Então tem que pensar com calma a hora e local para chamar essa ajuda. Não é simplesmente um botão de resolver situações difíceis. Inclusive esse jogo foi difícil. Quando não gerenciei bem minha munição e deixei os insetos ficarem apenas me seguindo sem ir eliminando e correndo pros objetivos, fui punido com força. Vale dizer que finalizei o jogo na dificuldade três, mas são quatro no total.

Mas isso não é tudo: quando cumprimos algumas missões podemos ver a versão dos insetos, que na história é o famoso ‘entenda seu inimigo’, então você joga em uma simulação das fases principais, onde os insetos ganham, e você controla o Assassin Bug, o tão famoso antagonista de Ultimate Bug War!. Ele pode evoluir para três formas durante o jogo para melhor lidar com os desafios, que são destruir as bases da federação.

A primeira forma é a forma de soldado normal, onde você só fura inimigos com suas garras ou investe neles esmagando os soldados da federação. A segunda é a voadora, que pode se mover pelo mapa para cumprir as missões com mais facilidade, marcar objetivos e também descer de rasante para matar alguns inimigos. A terceira é a forma especial, que carrega a medida que destroí ou mata, que é a forma de tanque, onde cospe fogo e bate com sua cabeça com força, causando muito dano à estruturas, além de recuperar toda sua vida e armadura — porém, é por um tempo limitado, você deve recarregar sempre que acaba.

As missões dos insetos são mais repetitivas. Consistem apenas em destruir os mesmo tipos de estruturas, e oferecem variedade apenas com algumas defesas que encontramos nas bases, porém são bem mais curtas então acabei saindo bem satisfeito e não com fatiga de fazê-las. Você pode recrutar insetos indo em ninhos (que também estão na campanha humana, mas lá devem ser destruídos para não ficarem criando mais insetos), que podem recuperar sua vida também. Eles têm uma rota de ataque que você pode ver e planejar, marchando com eles para destruir tudo. Só tome cuidado para os níveis de dopamina do seu cerebro não ficarem muito altos, porque a federação pode acabar achando que você é um traidor!
Esse sandbox unido à história faz a experiencia de Starship Troopers: Ultimate Bug War! excelente e bem divertida de vivenciar. Eles souberam traduzir muito bem o filme para o jogo, trouxeram uma jogabilidade bem divertida e com variedade o suficiente para fazer os momentos únicos serem marcantes e o sandbox criativo. Me lembra bastante aquela missão do Halo, sabe? The Silent Cartographer. Com certeza recomendo para fãs de FPS e Starship Troopers, vocês serão bem servidos em um jogo curto que sabe os momentos de trazer suas referências e contar sua própria história, que acaba se amarrando com o filme de uma forma interessante e justificável. Então, já que não vamos viver para sempre, gastar 5–6 horas nesse jogo foi muito bom e relaxante. E com certeza pretendo voltar para buscar os segredos que não achei e tentar a dificuldade mais alta!

Uma cópia gratuita de Starship Troopers: Ultimate Bug War para PC foi concedida pela Dotemu para análise no Recanto do Dragão.


