Baladins — simples, charmoso e excelente | Análise

Arte-chave do jogo Baladins

Sempre estou à espreita de jogos como Baladins. Desenvolvido pela Seed by Seed e publicado pela Armor Games, é um jogo que pertence a um formato que conheci a partir da série Monster Prom: mesclas de uma estrutura de jogo de tabuleiro e videogame que buscam entregar experiências centradas na cooperação, leitura, gerenciamento de tempo e… um pouquinho de sorte. Esse tipo de jogo poderia facilmente ser adaptado em um formato analógico, mas o uso do digital é conveniente, pois podemos não somente jogar de forma local, mas também online, seja pela popularização de ferramentas de jogo remoto ou por um sistema dedicado, como é caso de Baladins.

Antes, uma contextualização que acho interessante. Qualquer fã de jogos de tabuleiro em algum momento lamentou a falta de oportunidades de jogá-los com mais frequência. Não é atoa que, após o sucesso de Tabletop Simulator, houve uma grande crescente de adaptações digitais de jogos analógicos conforme as editoras percebiam o potencial do mercado. É importante pontuar também que formas como essas de se conectar a amigos e familiares remotamente foram impulsionadas durante a pandemia de COVID.

Dentro dessa crescente, formatos correlatos ganharam maior visibilidade mesmo que não fossem adaptados de jogos existentes, só por seguirem o mesmo espírito de ressignificar a experiência analógica no digital. Isso, porém, nunca os fez sair de um certo nicho, mesmo entre grandes franquias como The Jackbox Party Pack que tiveram uma breve tentativa de expansão ao localizar diversos títulos para diferentes línguas, mas logo recuaram provavelmente pela falta de retorno monetário.

Essa foi a razão que me fez, no começo do texto, expressar minha curiosidade sobre Baladins: mesmo que o maior análogo dele — Monster Prom — seja um jogo recente com três continuações, não deixa de ser um subgênero nichado e é ótimo ver novos desenvolvedores experimentando com essa estrutura.

Tabuleiro tridmensional que mostra a personagem na cidade de Mouliac, na primeira semana de uma partida. Na UI, podemos ver os pontos de movimento e ação, além dos atributos da personagem.

Agora que joguei, posso dizer que para além de legal, é satisfatório. Pois fiquei surpreso: esperava algo mais próximo de uma nova roupagem — aqui um formato de RPG fofinho sobre completar várias side quests — e recebi um experimento interessante sobre como tornar uma estrutura simples de party game de partidas independentes numa campanha contínua divertida que pensa de forma inteligente sua progressão, apesar de sentir as limitações do menor escopo em certos momentos.

Baladins é um RPG e aventura de fantasia para 1–4 jogadores onde, no início de cada partida, cada jogador escolhe um personagem do elenco, todos membros da guilda dos “Baladins”, grupo de aventureiros que saí por aí ajudando as pessoas e as divertindo. Sua estrutura é simples e similar a um jogo de tabuleiro: você tem pontos de movimento para andar entre as casas que compõem o tabuleiro e pontos de ação para, claro, realizar ações e conversar com NPCs. Seu mapa é composto de diversas regiões recheadas de personagens para interagir, os quais quase sempre tem uma ou mais missões para te entregar.

Como dito, há uma campanha para realizar, por isso, diferente da maior parte dos jogos do gênero, é possível finalizá-lo (o que ainda pretendo fazer!). De início, essa missão se apresenta como a líder da guilda pedindo que seus membros garantam que o Festival da Paz, que vai ocorrer dentro de sete dias, seja executado da melhor forma possível. Esse é, então, o objetivo do seu grupo durante a semana que denota o tempo limite da missão principal. O interessante é que não há somente uma forma de alcançar esse objetivo; na verdade, há vários caminhos possíveis que você encontra ao conversar com diferentes NPCs e concluir suas missões aparentemente secundárias.

No entanto, há uma surpresa. No final de sua primeira partida, você descobre que aquela missão servia apenas de tutorial e seu verdadeiro objetivo consiste em salvar o mundo de um loop temporal causado por um dragão que no sétimo dia chega e come o mundo e o tempo, jogando seu grupo de volta para o começo da semana.

Personagem raposa em uma conversa com o personagem Orti, o qual diz que pode haver soluções para o problema do dragão.

Agora, progressivamente, vocês terão que explorar o mundo e encontrar uma forma de evitar essa catástrofe temporal; mas não será uma tarefa simples porque os dias passam rápido, o mapa é extenso e a quantidade de possibilidades é enorme. Tanto que há diversos subterfúgios para simplificar a vida dos aventureiros. As principais são: em troca de um ponto de movimento ou de ação, você pode trazer ou ir até um amigo que esteja na mesma região. Sempre que você chega numa cidade pela primeira vez, é possível escolher começar nela na próxima partida e — o mais estratégico — é possível que cada jogador leve um item do loop anterior para o próximo.

Essa estrutura me conquistou muito rapidamente, porque uma das minhas características favoritas num RPG cooperativo é poder explorar não só com meus amigos, mas poder se separar para cada um fazer algo diferente em busca do objetivo em comum, talvez minha característica favorita dos CRPGs da Larian, por exemplo. Aqui, contudo, estamos numa estrutura muito mais simplificada e confortável que permite acompanhar as conquistas e tropeços de cada um graças ao sistema de turno. E, felizmente, há uma quantidade exorbitante de coisas acontecendo em cada canto, o que incentiva ainda mais o planejamento entre sua equipe — o elemento social tão importante desse tipo de jogo.

Menu de troca no multiplayer, onde é possível ver  os itens que cada jogador possui atualmente e que oferece uma olhada rápida nos atributos de cada personagem. O item selecionado mostra algumas informações como uma breve descrição e seus efeitos: +1 de criação, -1 de destruição e -1 de ponto de ação.

Tudo isso baseado num sistema simples de atributos onde cada personagem tem seu enfoque, mas pode ao longo de uma partida melhorar suas fraquezas para conseguir melhores resultados no sistema de rolagem de dados, que é consideravelmente generoso com o jogador e que permite combinar atributos com outros jogadores que estejam na mesma casa que você.

Para melhorar ainda mais, Baladins é extremamente carismático com suas lindas ilustrações e designs de personagens que me faziam sorrir a cada novo encontro, ajudados pela escrita divertida que coloca você em situações diversas nas quais o grande objetivo é aproximar ou reconciliar personagens diferentes em um mundo que sempre parece manter uma grande coesão interna.

A brevidade das partidas, uma outra grande qualidade que aprecio — normalmente em torno de 30 minutos — é uma faca de dois gumes, no entanto. Porque, apesar do jogo ser divulgado como um de 1–4 jogadores, é claro como quanto menor o número, mais difícil se torna progredir no pequeno espaço de tempo disponível dentro de um mundo tão expansivo. Creio, inclusive, que permitir partidas de apenas um personagem é um erro, pois perde muito das maiores qualidades do jogo e a dificuldade de fazer qualquer coisa deve ser frustrante.

Como joguei em uma party com apenas mais uma pessoa, senti um pouco disso e desejei que estivesse com mais dois jogadores, principalmente porque parece ser a forma ideal de jogar. Mas não posso negar o quanto gostei de Baladins, até porque muitas vezes a limitação incentivou a elaboração de planos mais objetivos para conseguir terminar linhas de missões mais trabalhosas (principalmente as que envolvem andar longos caminhos para conseguir ou entregar um item específico).

Tela que aparece ao entrar em Mouliac, onde é possível ver as NPCs presentes no momento: Filomena e Sopheline.

Poucas coisas poderiam melhorar ainda mais esse saldo positivo que tive. A maioria envolveria algumas funções de qualidade de vida para navegar dentro das dezenas de histórias narradas como, por exemplo, um menu contendo a listagem de personagens encontrados, uma breve descrição sobre eles e outras informações gerais sobre o reino para conseguir planejar melhor as partidas e, às vezes, até lembrar de coisas que já escaparam da minha memória.

Fora isso, Baladins é uma ótima forma de mostrar como ainda há muito espaço para pensar esse formato cooperativo-narrativo de enfoque social e é uma excelente base para caso algum dia a Seed by Seed deseje expandir em uma continuação ou talvez até mesmo um novo mundo, porque a criatividade visual desse jogo me faz querer ver mais do talento da equipe.

Uma cópia de Baladins para PC foi concedida pela Armor Games para análise no Recanto do Dragão.