LOVE ETERNAL nasce de uma vontade comum a artistas: revisitar o próprio passado. Neste caso, a origem de Toby Alden (ou brlka), que desenvolveu uma gama extensiva de jogos desde o primeiro LOVE de 2015 (não confunda com LOVE, de Fred Wood, que também é um ótimo platformer 2D em pixel art).


Mais de 10 anos depois, Love Eternal aparece como uma mescla entre precision platforming em 2D, terror e aventura feita com a consciência de que quase ninguém irá vê-lo como uma reimaginação, já que apenas 11 pessoas terminaram o original (estou entre elas!). Ele lança amanhã, dia 19 de fevereiro de 2025, desenvolvido por brlka e publicado pela Ysbryd Games para PC, Nintendo Switch 1/2, Playstation 4/5 e Xbox Series X|S.
Nota: Também escrevi sobre o primeiro Love em inglês aqui.
Nota²: Este texto contém spoilers vagos (e visuais) de Love Eternal.

Love Eternal emaranha suas ideias e exercícios de gênero com nós apertados. A base é a mesma do Love original: uma garota presa num castelo de puro concreto passa por obstáculos de lasers, mexe em alavancas, encara estátuas monumentais e inverte a gravidade como se estivesse numa versão menos irônica de VVVVV.
Esta é sua única habilidade além do pulo: ao apertar X (tanto no teclado quanto no controle de Xbox!), a protagonista inverte a gravidade com um pequeno delay de momentum, que se assemelha ao movimento de uma onda sinoidal. Ela só pode fazer isso uma vez até tocar no chão novamente. Pequenos coletáveis espalhados pelas fases recuperam a inversão e costumam pedir que você use sua carga logo antes de pegar um deles para, então, usar a inversão novamente e desviar dos obstáculos. É mais fácil de entender em movimento.

Em Love Eternal, jogamos com Maya, uma garota que se sente deslocada em sua família. Num jantar comum, logo após sua amiga Lacey cancelar uma ida a um show que Maya estava animada para ver, ela atende o telefone e seu mundo desaba. Do lado de fora, sua casa está em ruínas e seu corpo preso num castelo rodeado pelo oceano. Maya corre em busca de uma saída e o jogo começa.
Este mistério é envolto de diversos outros no decorrer do jogo, que corta para cenas de terror nos momentos mais inesperados. Maya não está sozinha no castelo, e muito menos no controle. Existe outra Maya igualzinha a ela correndo por ali, e ela parece definir as regras do local.

Não sei se consigo julgar os desafios de plataforma de Love Eternal, ao menos não suas dificuldades. O primeiro Love é, sem brincadeira, o jogo mais difícil que já terminei. Os desafios não parecem tão cruéis de longe, mas requerem uma precisão inimaginável, mesmo com os checkpoints constantes (que vão diminuindo com o tempo). Você deve dominar a física tanto regular quanto a de ponta-cabeça, e aprender a desenhar ondas de inversões com antecedência para planejar uma trajetória que ainda vai necessitar de uma execução perfeita de movimentos e ajustes.
Passei dezenas de horas jogando entre diversos anos para chegar ao seu final real, o qual fiz sem querer. Como suas mecânicas são idênticas às de Love Eternal, tudo passou retinho para mim. A sequência com certeza ainda é difícil, mas ordens de magnitude menos estrita na precisão. Existem até salas visualmente iguais às do jogo antigo, mas recriadas com, sabe, margens de erro em mente. Para você poder passar de uma sequência de inversões com timing bom-mas-não-perfeito e não tomar um espinho na cabeça por ter ‘errado’ o ritmo de uma das inversões em, tipo, dois frames.


Amo o quão seco é o primeiro jogo em sua rigidez mecânica, mas a leveza adicionada a Love Eternal é indispensável para sua mistura de gêneros. Você vai passar bastante tempo lendo também!
Não só lendo, mas degustando os visuais insanos (e a trilha incrível de Emily Glass). A pixel art de Love Eternal, assim como a do primeiro, é feita pelo irmão de Toby, Sam Alden, que colocou seu coração nos planos de fundo. Estátuas monumentais, paisagens urbanas, personagens, e até os pequenos detalhes da construção do castelo recebem um tratamento detalhado e estiloso. É um enorme contraste com os visuais crus e agnósticos à iluminação do primeiro jogo, e entrega o peso de cada passo de Maya. A entidade que preside o castelo esteve ocupada.

O castelo se reconfigura a cada seção de Love Eternal, e abstrações cada vez maiores de diferentes locais são projetados nele. A progressão é linear, mas a narrativa… não necessariamente??? É difícil pegar as nuances das trocas de perspectiva e gameplay que vem e vão como o vento. Tive que terminar o jogo duas vezes pra entender o que estava acontecendo, e não tenho nenhuma certeza do sentido que minha mente conferiu à esta história. Não é a toa que a narrativa é descrita como experimental na página do jogo.
Na minha visão, é tanto uma história concreta da combinação de isolação e poder quanto uma meditação sobre o desenvolvimento de um jogo — a entidade que comanda este castelo, que chamarei de Maiba, tem poder sob todos seus prisioneiros, que são controlados como bonecos, assim como faz o jogador. Aqui em Love Eternal, não posso ter real controle de Maya. Isso fica bem claro. No Love original, até o castelo é mais aberto. É repleto de loops, caminhos novos, segredos, e uma camada avermelhada secreta; esta última é explorada também em Eternal, mas com um propósito narrativo vindo no primeiro plano.

Maiba, intervém em vidas alheias na premissa de ajudá-las; a busca do mesmo companheirismo que um cachorro pode entregar à um humano. O amor, para ela, vem depois do servilismo. Ela reconfigura a família de Maya em busca de apagar quem a negligencia e, no caminho, acaba mais unindo as pessoas que aprisiona que conquistando seus afetos.

O terror urbano de Love Eternal me aterroriza não só por tocar no vale da estranheza, mas por utilizá-lo para representar a ferocidade do controle. Por vezes, os arcaicismos e desentendimentos de Maiba são charmosos e engraçadinhos. Afinal, qual outra divindade ama usar #memes estilo Rage Comics (tipos de carinhas são) sem saber o que significam para agradar suas presas? Porém, as suas mesquices e a maneira que trata os seres vivos que controla é genuinamente assustadora. São todos humanos. São todos deformações.

Existe um pedaço grande desta história que fica no subtexto, em especial a já mencionada família original de Maya. É uma ofuscação elegante, pois este buraco na história é responsável por alguns de seus momentos mais assustadores e intrigantes. Parece que há jogos inteiros escondidos nas profundezas de Love Eternal — até pressinto paralelos com o segundo, e inacessível a mim, jogo dessa que na verdade é uma trilogia: HATE. É um jogo exclusivo de Mac que vandaliza tudo que existe em Love. Talvez seja por isso que seja, bem, exclusivo de Mac.
O vandalismo vem na rejeição que Love Eternal demonstra à estrutura do Love original. Os finais do antigo são recriados e reconstruídos pelo novo. Nessa altura, tudo que tiro destes momentos é catarse. Vejo aquilo que demorei tanto para ver em Love passando pelos meus olhos como parte de um fim que não consigo compreender apenas com palavras. O castelo é, também, uma prisão para quem o criou. Não sei nem com quem mais estou jogando.

Para a entidade no controle, seja do jogo ou do castelo, Love Eternal é sobre conhecer o que constrói. Se tornar o que joga. Caminhar onde quer. Entender as entranhas. Refazer o passado. Falsificar os limites. Enxergar sua prisão. Abrir o véu. Dilacerar o que já foi. Retirar o controle. Odiar eternamente, para não perder o que tem. Amar eternamente, seja lá o que tiver que amar.
Para as presas do castelo, sejam elas nós ou os sujeitos de Love Eternal, é impossível tocar na totalidade do que passamos. Vemos apenas fragmentos. Sentimos apenas o que nos é permitido. Suplicamos a Deus. Somos presos em finais, e logo libertos na quebra dos limites que confinam um jogo. Aquelas redes de arame que barram este castelo não podem ser removidas, mas podem ser ignoradas. Não iremos esquecer disso.

Uma cópia de Love Eternal para PC foi concedida pela Ysbryd Games para análise no Recanto do Dragão.


