Para o imperador destas estradas, o topo é o fundo do poço.
Ninguém o toca. Ninguém o desafia. Restam apenas as luzes que passam pelo seu retrovisor.
Seu para-brisa é um borrão.
O próximo loop pode muito bem ser seu último.
Tokyo Xtreme Racer, ou Shutokō Battle no Japão, é uma daquelas séries de jogos. A franquia clássica de corrida de estrada começou no Super Famicom como Drift King Shutokō Battle ’94: Tsuchiya Keiichi & Bandou Masaaki, seguiu firme e diferente no Playstation 1, Dreamcast, e Playstation 2 com diversos jogos principais e spinoffs, até morrer na 7ª geração de consoles com Import Tuner Challenge, exclusivo de Xbox 360 lançado em 2006.

Os custos elevados de produção, exclusividade no console da Microsoft, título estranhíssimo no ocidente, e constantes análises negativas foram o suficiente para matar o carro-chefe queridinho do estúdio Genki, que desde então se manteve de pé como um estúdio de suporte e contratos, sob o guarda chuva da empresa de pachinko Daikoku Denki. A 7ª geração deixou muitos estúdios para trás.
Olha, eu não consigo te dizer como, no começo de 2020, a Genki conseguiu a grana necessária para passar cinco anos desenvolvendo um revival e pseudoreboot da série na Unreal Engine 5, mas eles conseguiram. Segundo entrevistas da Automaton com o representante de marketing Takatoshi Sato e o produtor de longa data Kentaro Noguchi, a popularidade da Steam e o crescente mercado de PCs no Japão tiveram algo a ver com isso.
A estratégia de marketing também envolveu colaborações com diversos VTubers e entusiastas da nova geração do entretenimento, o que possivelmente ajudou o estúdio a dar o grande pontapé de investimento necessário para bancar o jogo.

Tenho esse papo de orçamento no início deste texto pois um jogo como esse parece uma impossibilidade no mercado de jogos atual. Não a parte de trazer uma propriedade intelectual reconhecível de volta aos olhares do público faminto, mas a sim forma que Tokyo Xtreme Racer (2025) fita seus olhos no mesmo prêmio que todos os outros jogos que vieram antes almejavam. Ele é e parece a sequência direta de Import Tuner Challenge.
Tokyo Xtreme Racer (2025) foi lançado em 23 de janeiro de 2025 em Early Access, e subsequentemente teve a versão 1.0 lançada em 25 de setembro do mesmo ano, desenvolvido e publicado pela Genki. Agora, em 25 de fevereiro de 2026, foi lançada uma versão para Playstation 5.

Do primeiro título de Dreamcast para frente, Tokyo Xtreme Racer se manteve sua direção em trilhos estreitos. Com a exceção de mudanças aditivas, o coração do jogo é sempre o mesmo: você vaga estradas japonesas em alta velocidade em busca de rivais para desafiar em batalhas com barras de vida denotadas Spirit Points (ou SP). Ficar na frente faz o inimigo tomar dano, e vice-versa. Bater em outros veículos ou nas paredes também te faz perder SP. Você vai ganhando grana para tunar seu carro e adquirir novos. Novos times de rivais mais difíceis aparecem após derrotar certos chefes. Eventualmente, o jogo acaba.
Esta é a exata estrutura de Tokyo Xtreme Racer (2025), ainda mais conservadora que diversos de seus predecessores. Neste jogo, por exemplo, a única estrada disponível é a Shuto. É um back to basics estrutural com algumas heranças interessantes de outros jogos.

Conforme o maior foco em narrativa de Import Tuner Challenge, TXR (2025) entrega uma quantia enorme de diálogos e interações com personagens novos e veteranos na franquia; o protagonista mudo, como os passados, não fala e recebe uma gama customizável de títulos desbloqueáveis.
Tokyo Xtreme Racer (2025) é dividido em três arcos que podem ser progredidos em qualquer ordem dentro de cada capítulo, ou ‘Stage’:
Rebirth of the Legend foca nos antigos times e rivais dos primeiros jogos da série, que agora teve sua continuidade alterada — o primeiro Tokyo Xtreme Racer de 1999 se passava em 1999, enquanto no novo jogo se passa em 2012 (e por aí vai). Mesmo assim, muitos de seus eventos continuam canônicos. Os devaneios filosóficos deste arco são nostálgicos e otimistas. O protagonista novato pulsa o sangue das antigas gerações que ainda vagam as estradas de Shuto.

Return of the Bastards segue os eventos de Import Tuner Challenge com reviravoltas e acidez. Os vilões deste arco são caracterizados como demônios vingativos que ligam mais para status que as próprias corridas.

Rise of the New Generation coloca o protagonista em pé de igualdade com uma amigável rival Eternal Polaris, que cresce junto com ele na cena de corrida de Shuto. O tom esperançoso é reforçado por uma das inspirações do novo TXR: a renovação de interesse em carros japoneses na cena automobilística. É uma história entre duas almas correndo em conjunto.

A dedicação narrativa de Tokyo Xtreme Racer (2025) é um de seus pilares mais importantes. Mesmo sem ter familiaridade extensa com jogos prévios da série, o peso que corredores passados recebem ajuda este mundo a florescer como nunca antes. Protagonistas prévios como Speed King, de TXR 2 e Snake Eyes (agora Revenge Eyes), de TXR 3 retornam como lendas vivas. É mais impressionante ainda que este efeito é atingido com pura quantidade de diálogos. Por si só, são curtos, mas existem tantos que este se torna uma espécie de jogo de fofoca. Você ouve rumores e opiniões de outros corredores e pessoas que acompanham as corridas, principalmente em estacionamentos espalhados pela estrada. São muitas falas, e pouco desenvolvimento. O suficiente para conhecer este mundo, mas não para respirá-lo.

Este é o mais RPG que a franquia já conseguiu ser, então uma ampla mitologia o faz muito bem. Além de tuning simples e configurações de peças complexas para nerds, também existe uma árvore de perks e habilidades que você desbloqueia com Battle Points (ou BP), adquiridos ao derrotar rivais. O sistema está lá tanto para te oferecer escolhas interessantes quanto para limitar o quanto pode progredir em cada Stage — se não gostar disso, existe o modo Enjoy, que remove o limite e deixa você ir à loucura com builds malucas desde o início. As escolhas são apropriadamente indagantes: você pode priorizar liberar carros de certos fabricantes enquanto ignora outros ou ganhar bônus extras ao vencer oponentes e desbloquear novas opções de tuning.

O que me estranha nesta economia é a questão dos carros de rivais, que podem ser comprados ao derrotá-los. Eles vêm pré-customizados e assim não podem receber melhorias. A questão é que a grana gasta em comprá-los é quase a mesma de adquirir um veículo normal e tuná-lo, mas não requer gastos de BP para desbloqueios. Ou seja, são bem mais fortes do que deveriam. As desvantagens deles eram um pouco mais amplas: você não podia instalar nitro ou sequer vendê-los, mas agora você pode a partir da atualização vinda no lançamento da versão de PS5.
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É uma forma poderosa demais de detonar rivais do início ao fim da campanha. Use este conhecimento com cautela. Só senti o proveito máximo de tunar e customizar meu próprio veículo logo no fim da campanha, quando comprei o Nissan GT-R T-Spec 2024, um dos carros mais poderosos do jogo.

Para ser realista, nem acredito que é necessário apelar para veículos superpoderosos em Tokyo Xtreme Racer (2025). Salvo certos chefes e o aumento de dificuldade no início do Stage 3, é sempre possível derrotar diversos dos rivais disponíveis no mapa.
É até divertido planejar rotas com antecedência para maximizar a quantidade de batalhas que conseguirá em um loop. Seus pneus vão desgastando no caminho e nitro vai esgotando, mas você pode recuperá-los nos estacionamentos. Até trocar a direção da estrada é possível dependendo das rotas que traçar e dos estacionamentos onde escolher parar. Existe toda uma curva de aprendizado na exploração e navegação separada do ato de dirigir, o que torna esta uma experiência análoga a amar o grind.

As batalhas requerem sua atenção e cautela, mas são menos focadas em curvas monstruosas e mais em decisões estratégicas e, bem, o poder do seu veículo. Não há como escapar: vai ter uma hora que a única coisa que você pode fazer para progredir é mexer no seu carro ou trocar para um mais parrudo, por mais que nunca precise do mais forte disponível (sem contar alguns dos opcionais Wanderers). É o ciclo que estas corridas pedem de ti. Pelo menos dá pra segurar o seu AE86 por um bom tempo e fingir que o Takumi Fujiwara de Initial D saiu das corridas de montanha para explorar as estradas de Tóquio.

Esta rigidez na progressão poderia ser uma das primeiras coisas a serem amenizadas na lista de qualquer outro estúdio querendo fazer um reboot agrada-todos em 2025, mas a Genki manteve seus pés firmes e fortes no chão. A progressão quase-estatística e a repetição de engajar centenas e centenas de rivais que devem ser encontrados no meio de suas vagadas na estrada é a maior crítica que esta franquia recebia desde seus princípios no mercado ocidental, mas também é um de seus maiores pilares. Me surpreendi quando um dos Wanderers pedia mais de 350 rivais derrotados para correr contra mim, e aceitou de imediato pois eu já tinha atingido o requerimento. Tokyo Xtreme Racer é um JRPG de carro tanto quanto Racing Lagoon, mesmo que tenha outra estrutura e outras prioridades. Aqui, a interação do seu carro com a estrada é o que define sua experiência.

Por isso acabei descrevendo minhas seções com o jogo como ‘runs’. O jogo considera cada saída da garagem para a estrada como um dia. Ao chegar num novo dia, você vê uma curta cena do céu escurecendo e dando lugar para a noite que rege as corridas de rivais. Quando sai com seu carro, seja para derrotar um rival e voltar para a garagem ou para maratonar 20 ou 30, você está fincando sua escolha de carro e tuning. Mas, no próximo dia, nada te impede de escolher um carro Kei fraquinho para brincar sem compromisso. A noite é toda sua.

A trilha que acompanha suas batalhas é reservada até demais. Existem muitas músicas em Tokyo Xtreme Racer (2025), mas a maior parte das que tocam são remixes de trilhas clássicas anteriores, que parecem mais bregas do que qualquer outra coisa aqui. É uma das sinas de um reboot tão compromissado com reacender sua chama passada. Pelo menos o tema da Eternal Polaris enfatiza aspectos eletrônicos que parecem muito em casa no novo jogo. Recomendo dar uma olhada no menu de música e customizar quais você vê para não endoidar ouvindo os mesmos três temas antigos em loop.

Parte do apelo de reviver uma antiga série de jogos de corrida, para o público atual do gênero, é ver os #gráficos novos possíveis na modernidade. Honestamente, parte do sucesso do reboot deve residir neste exato tipo de jogador, que quer mais um TXR, mas com gráficos modernos. Em partes, entendo esta fome. Muitos fãs de jogos de corrida também são fãs de carros reais, então ver e dirigir representações detalhadas de carros fora de seus alcances na vida real é um apelo único para o gênero.
Vejo a utilização da Unreal Engine 5 neste jogo como um exemplo claro e direto de sua utilidade. Ela deixa desenvolvedores de times menores realizarem visuais com recursos modernos com menor dificuldade e investimento de tempo. Sabia que este jogo tem Ray Tracing na Global Illumination? Ele nem te avisa que esta opção existe, só liga ela se você colocar a Global Illumination no High ou Ultra. Ela também faz o jogo ir de tipo 150 FPS em Quad HD pra ~60 no meu computador. Ai, ai, ai…

Digo com confiança que eu gosto dos visuais de Tokyo Xtreme Racer (2025). Mas… mas… massssss… eles não são tão românticos quanto poderiam. As luzes e reflexos e prédios e pontes e até a tão querida lua não brilham tanto quanto poderiam. Os bolsos de escuridão deixados pelos pontos cegos da eterna noite de Shuto não contrastam tanto com os brancos da imagem. Além das auras de chefes, os carros não deixam feixes de luz enquanto correm. É uma noite sóbria para um reboot sóbrio.

Não trago estas ressalvas como grandes críticas, mas sim com o intuito de destacar as concessões necessárias para Tokyo Xtreme Racer (2025) existir no cenário de jogos atual. Todas as entranhas e comprometimentos estão aqui, e novas ideias fluem dentro dos laços narrativos do jogo, mas, para a Genki, este jogo é uma oportunidade que não pode ser estragada. É um jogo de Playstation 5 por fora, e um de Playstation 2 por dentro.
Na 73ª noite, o novo imperador descansa.
Sua fome ainda clama por mais, mas sua catarse é impossível.
A eterna polar continua correndo.
Os pés em seu acelerador não se importam com a distância.
A estrada de Shuto brilha como uma constelação.

Uma cópia de Tokyo Xtreme Racer (2025) para PC foi concedida pela Genki para análise no Recanto do Dragão.


