Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties — garra do dragão | Análise

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Abraçar as sensações que permeiam a constituição do videogame Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties é uma ação que, de pouco em pouco, quebrou o casco que eu criei depois de finalizar Like a Dragon: Infinite Wealth dois anos atrás.

Após finalizar aquele videogame, a franquia já tinha cumprido seu propósito em minha mente.

Na realidade, todos os propósitos e interpretações da concepção de Yakuza já tinham sido cumpridos e canonizados nas dezenas de reiterações. No entanto, foi nesse meio-fio que novas idealizações foram produzidas…

O caminho estava traçado para Stranger Than Heaven e o novo Virtua Fighter conseguirem quebrar o ritmo anual e desequilibrado (mesmo com sequências de acertos) da Ryu Ga Gotoku. A concepção destes dois jogos conseguiria reaproveitar tudo que o estúdio já era especializado, mas com um toque de algo novo… mas, enquanto isso, temos um impecilho!

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties é um jogo desenvolvido pelo Ryu Ga Gotoku Studio (e por estúdios terceirizados) e publicado pela Sega, lançado em 12 de fevereiro de 2026 para PlayStation 4 e 5, Xbox Series S|X, PC e Nintendo Switch 2; a primeira vez que um jogo da franquia lança para um console da Nintendo em unisolo com outras plataformas.

Essa informação extra não tem serventia alguma além de tentar te lembrar que existe um porte horrendo de Yakuza 1 e 2 para Nintendo Wii U!

Discutindo com quem gostava da franquia dos dragões (figurativos) mafiosos, um pensamento flutuava da ideia de um Kiwami 3. Parecia, no minimo, um bom sonho a ideia de revisitar um lugar no espaço da vida do Kiryu tão especial e singelo. O recorte de um momento que não volta mais: um retrato, um espaço; família, afeto, a busca por uma vida pacata e todos os desdobramentos de ser um pai de família de mais de 10 crianças, sabe?

Anunciado Yakuza Kiwami 3; as coisas se partiram, e agora, encontro meu coração preso e amarrado nas sensações mais conflitantes em como analisar um videogame neste site. No entanto, estou certo do que quero dizer, e por isso, irei desmembrar esse ideal em pedacinhos pra você!

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

O que realmente significa ser EXTREMO™?

A sensação de colocar as mãos no seu controle e jogar Yakuza Kiwami 3 te coloca numa perspectiva turva da conceitualização do combate do Kiryu. Aquela recente que tem como os principais núcleos The Man Who Erased His Name e Kiwami 2.

No caso da comparação com o Kiwami anterior, é clara a busca de criar um combate satisfatório na ação de espancar seus oponentes, e agora, de maneira ainda mais intensa, criar feedbacks sonoros dos ataques do Kiryu de “Pish” pro jogador se sentir atiçado por sonzinhos satisfatórios…

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

No caso do primeiro titulo da franquia Gaiden, assim como Kiryu tinha um modo de combate baseado em ser um agente secreto, aqui é o estilo Ryukyu que domina. Neste tal estilo, o Dragão de Dojima se apropria das artes marciais de Okinawa e os armamentos que englobam a cultura da província. Isso envolve o uso de:

  • Tinbe-rochin: a combinação de uma lança e escudo.
  • Surujin: uma arma composta de uma corda e pesos nas extremidades.
  • Eiku: literalmente um REMO DE MADEIRA.
  • Tekko: aquelas luvas laminadas que devem fazer um tremendo estrago…
  • Tonfa: o clássico cassetete.
  • Nunchakus: esses não precisam de explicação, né?
  • Nichogama: o uso de duas foices agrícolas pra dilacerar seu oponente…

À primeira instância eu confesso que fiquei tremendamente apodrecido de ver o Kiryu usando escudo e uma arma branca, tal qual um herói de RPG.. mas as coisas por aqui são um pouco mais baseadas em fatos “históricos”.

Para entender a inserção destes armamentos no minimo bizarros e que certamente não conversam com a elegância da agressão de Kiryu Kazuma, é necessário entender a história de Okinawa e as ilhas Ryukyu…

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Uma breve intermissão histórica

A cultura de Okinawa e toda a presença humana nas ilhas Ryukyu é uma das histórias mais antigas de pessoas no Oceano Pacífico.

Essas pessoas eram uma das primeiras comunidades caçadoras-coletoras, que viviam exclusivamente de peixes, moluscos e recursos costeiros; afinal, era um pequenos acumulo de ilhas, que formavam um arco que descia no mapa até se aproximar de Taiwan.

No entanto, entre 1429 e 1879, o reino de Ryukyu unificou as ilhas e centralizou um próprio estado em Shuri, onde esse espaço começou a se benificiar da relação marítima entre a Dinastia Ming (China), Coreia, Japão, e todos os paises do sudeste asiático.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Com sua própria arte e cultura, vivendo um dogma baseado em ancestralidade, animismo e misturas de crenças chinesas (incluindo a clássica estatua de Shisha, o meio-leão, meio-cachorro que habita os telhados das casas da região).

O povo de Okinawa teve sua cultura em cheque quando foi invadida em 1609 pelos clã japonês Satsuma, que resultou no seu reino abolido e transformado em prefeitura em 1879.

A tragédia não acabou por aí; afinal, a batalha de Okinawa em 1945 deixou 200 mil mortos (em sua maioria, a população local), e forçou Okinawa a servir os Estados Unidos por quase 30 anos. Enfim, hoje em dia, Okinawa vive com uma das maiorias expectativas de vida do Japão, em busca de manter sua própria tradição e viver do turismo local.

Em meio a tantos acontecimentos e simbologias, é muito simbólico a decisão de uma homem em busca de resignificar sua própria vida, viver num lugar como esse.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

E o que sobra de novo?

Nada? Talvez o combate desse videogame, que é incrivelmente limitado e regido por uma arvore de habilidades minúscula em comparação ao próprio jogo original de 2009.

Mas agora você tem um telefone flip e pode fazer amigos na rede social da LaLaLa Mobile. Não, não tem nada a ver com a mecânica de Revelations que foi obviamente removida, já que é muito dificil refazer um videogame que já foi feito, pelo jeito.

Veja um ícone na tela, interaja com a pessoa, e continue seu caminho, isso se nesse meio tempo não chegar um bando de pé rapado para tentar brigar contigo. Esses pequenas interrupções sistêmicas quebram qualquer tipo de ritmo ou imersão naquele mundinho.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Ah, mas eu tenho a solução para você jogador, o protótipo de Street Surfer. Aquele segway do Infinite Wealth. Exatamente, por que por algum motivo faz muito sentido precisar do uso de um veículo para facilitar a travessia numa das menores regiões da franquia!

Quem precisa de imersão quando o videogame que se passa em 2009 tá te vendendo a trilha sonora de Persona 3 Reload e Metaphor: ReFantazio. Pelo menos tem muito jogos interessantes no seu SEGA Game Gear e nos fliperamas.

Este jogo teve o auxilio terceirizado da Yuke’s, desenvolvedora dos jogos de WWE até 2019, Berserk: Millennium Falcon-hen — Seima Senki no Shou e The Dog Island. Considerando o portifólio deles e os processos virtualizados do monoteísmo que unifica todos os conceitos em um videogame, faz muito sentido eles ajudarem em fazer este videogame.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Também faz muito sentido que tudo esteja tão distante do ritmo ao mesmo tempo que, de maneira sintética, replique o que se entende de Yakuza. O jogo é gostoso de jogar, em partes até demais… mas a densidade é substimada e exilada, mesmo na maior dificuldade.

Claro que talvez eu esteja exigindo muito; veja por exemplo, Kamurocho tem um filtro azul que, pelo o que bem me recordo, veio de Yakuza Kiwami 2, e por algum diabo de motivo não está nas cutscenes do videogame, então toda transição de tela é regrada na insurreição de um azul infeliz e insatisfeito.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Eu não vou comparar essa imagem de Yakuza Kiwami 3 com a do jogo original de 2009… mas você vai saber qual vai ser o resultado.

É na escalada de pequenas frustrações que Yakuza Kiwami 3 já se torna basicamente uma iteração da franquia moderadamente “irritante” para quem já tinha afinidade com o jogo original. Quando alguém que já tinha jogado Yakuza 3 me perguntava se eu já tinha chegado em determinada parte do jogo, eu era obrigado a dizer com um sorriso insatisfeito que “eles removeram isso”, não foi uma, duas, três…

Eu me desafio a não passar o restante deste texto listando tudo que foi removido do videogame novo e que nem sequer faz sentido, já que isso só fere o que ele representava em seu lançamento. Você deve saber bem disso, e caso precise mesmo, pesquise à vontade as listas que mostram a remoção de mais de 70% das missões secundárias.

O que realmente me fere é o tratamento do orfanato Morning Glory. Se por um lado é concetualmente interessante a gestão de fazendinha, enquanto eu preparo comidinhas para as crianças, brinco com elas, ajudo com o dever de casa, costuro roupas e até cuido de uma plantação com direito a galinhas e vaquinhas; tudo isso é bem mais artificial e insuficiente. Age como a busca infinita por estátisticas para fim de entretenimento e diversão.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Não tem aquela ideia onde conhecer mais de seus filhos ocorria de uma maneira diegética e súbita. Fica farmando aí que uma hora você descobre que essas crianças tem o mínimo de personalidade. Enquanto isso? Planta legumes.

O minigame Musou da gangue de motoqueiras mirins só consegue ser interessante porque, bem… é um minigame Musou. Mas de resto? É conteúdo, um amontoado implacável de conteúdo descartável herdado de Pirate Yakuza, Gaiden e Infinite Wealth e que adiciona nada além do consumo.

Eu adoro fazer minigames e coisinhas do tipo. Em partes, é essa a coisa que dá o corpo da franquia. No entanto, é no minimo escabroso essas coisas protagonizarem a experiência do jogo, ao ponto que, enquanto temos momentos completamente retalhados da história que eram significantes potentes da narrativa original, você é obrigado a fazer um contéudo secundário de gerenciamento de recursos por mais de uma hora.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

#REMOVEKAGAWA e a reputação do dragão

Kiwami 3 contou com a presença do ator Teruyuki Kagawa para substituir George Takahashi na interpretação do antagonista Goh Hamazaki, presente em Yakuza 3 e Yakuza 4.

Ele é um ator reconhecido de séries de drama do Japão, filmes (incluindo adaptações live-action de 20th Century Boys e Kaiji), além de comentarista de boxe. Além disto, ele é também é cheio de acusações de abuso sexual.

Isso não é nenhuma alegação infundada pois, em 2022, ele mesmo se desculpou por essas ações (uma admissão de que tal abuso poderia mesmo ter acontecido) com cerca de três vitimas identificadas até o momento. Isso não impediu o estúdio Ryu Ga Gotoku de se orgulhar com a presença do ator.

Os fãs da franquia se reuniram para realizar um protesto em sua presença com a hashtag #REMOVEKAGAWA e, desde o anúncio do videogame, se esforçaram em soltá-la em todo material de divulgação do jogo enquanto, de pouco em pouco, as redes foram privando e removendo comentários.

Vale ressaltar que, em 2019, Judgment foi retirado das lojas, após o ator do personagem Kyohei Hamura, Pierre Taki ser apreendido pelo uso de cocaína. O jogo voltou apenas quando substituíram seu ator e voz.

Depois de tantas críticas, a Ryu Ga Gotoku continuou a trabalhar o marketing na presença do ator. Chegaram até a lançar uma entrevista, onde deixaram claro que não estavam dispostos a realizar uma troca de atores, tampouco incomodados com o backlash do público. Na realidade, eles aplaudiram a sua presença:

“Hamazaki é um yakuza viscoso, persistente e combativo, certo? Como ele não é um personagem explosivo como Kanda, quando tentamos pensar em alguém que fizesse você dizer “esse cara é um creep”, naturalmente chegamos ao Kagawa — esse foi o principal fator.

A atuação de Kagawa é divertida de assistir. Mesmo quando ele está cortando os pés de um porco com uma faca de chef, há uma sensação meio viscosa. Esse sentimento permeia toda a sua performance, trazendo um frescor para a cena e fazendo com que ela pareça realmente divertida”.

Palavras de Ryosuke Horii, atual produtor da franquia Yakuza.

O estúdio só se desculpou quando, através da DEMO, os jogadores perceberam que o jogo era feio pra dedéu. Aí sim, soltaram uma notinha pedindo perdão. E o jogo é feio mesmo.

desentrelaçando meus ideais

Todo o sentimento abrasivo e desconfortável da existência de Yakuza Kiwami 3 é ainda mais intenso na sua expansão, que supostamente seguiria os “moldes Gaiden”.

Apesar de nunca oficialmente justificado, o “molde Gaiden” deveria ser uma história que explora as dinâmicas de um determinado personagem, enquanto cicla com um minigame principal que de algum modo conversa com a própria narrativa; além de muitas microtarefas que já estão associadas ao loop da franquia.

Em Dark Ties, acompanhamos a história de origem na Yakuza de Mine, o vilão principal de Yakuza 3. Desde sua vida como techbro siliciano sendo arruinada (que tem como paralelo o filme Homem-Aranha (2000) de Sam Raimi) até ele desenvolver uma relação parasocial homoafetiva com Daigo Dojima e tentar se infiltrar da maneira mais simples no clã Tojo. Ele só precisou perseguir o abusador sexual mitomaníaco Tsuyoshi Kanda e encher a boca dele de dinheiro…

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Jogar Dark Ties se mergulha numa estética digna de Shadow Generations, num flerte esquisito entre as correntes ríspidas dos anos 2000 com uma pasteurização contemporânea onde Mine realiza ataques de boxe e enche seu coração oco… em laços obscuros? É… Tudo isso enquanto faz trabalho de PR do Kanda para tirar a mancha de sua reputação em Kamurocho. O cara que abusa e mata mulheres nessas mesmas ruas.

Cuidar da reputação do cara requer desde bater em trombadinhas na rua até cantar Bakamitai no Karaoke. De fato, essas coisas regurjitam o design preestabelecido em The Man Who Erased His Name, mas não em sua maior força.

Ao invés de um grande trabalho por trás da simbologia de seu protagonista, o escritor de Dark Ties, Kazunobu Takeuchi, se afunda numa constante e infeliz flanderização de todos os personagens presentes em Yakuza 3.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Reavaliando minha relação com meu jogo favorito da franquia, eu percebi as engrenagens que faziam Yakuza 3 ser o jogo perfeito daquele molde.

O malabalismo praticado para conseguir relacionar a nova vida pacata de Kiryu na provincia de Okinawa, com a presença de uma família da Yakuza que, mesmo com tradicionalidades, é um tanto disruptiva e até patética; A chegada de antagonistas que rememoram os piores lados do clã Tojo como membros da familia Nishikiyama… Enquanto isso, antigos membros do clã e aliados do Kiryu como Kashiwagi e Majima tentam lutar contra os devaneios da tentativa de golpe naquela autarquia.

Caramba, tem o Governo do Japão e o Governo dos Estados Unidos envolvido nisso. Tipo, literalmente agentes secretos da CIA soltando o verbo to be.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

E, em meio a isso, Yoshitaka Mine. A representação de uma juventude ansiosa por vencer na vida. Com as preocupações do sistema neoliberalista presas no próprio cortex cerebral. Antes de conhecer Daigo Dojima, Mine sempre tentou ser o melhor em tudo, sem ídolos e ideiais, sem uma mítica por trás de suas ações.

A sua relação com Daigo é cativante por forçá-lo a tentar entender uma cultura que, por razão de sua vida miserável, ele não consegue entender. É preciso lembrar que, em Yakuza 2, Daigo era um trombadinha aristocrata que encontrou em Kiryu um motivo para seguir em frente.

Aquilo que inspira o que nos inspira, pode soar incompreensível em meio a uma barreira geracional aceleracionista. A batalha da Millenium Tower coloca as sensações humanas em cheque. O que é um mito? O que é real?

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Em sua queda, Mine encontrou seu próprio significado. No entanto, eu também diria que os criadores deste remake, ou perderam tal significado, ou estavam muito ocupados só pensando na melhor desculpa esfarrapada de todos os problemas deste videogame.

Nem sequer vou endereçar ou expor tudo de incongruente que as novas cenas tentam retratar, porquê é um nível tão patético de dissimulação de uma história construída de maneira linear a tanto tempo, que parece uma piada de mal gosto.

Não afirmo que sei mais sobre as intenções de história da jornada de Kiryu e seus entes queridos do que os próprios funcionários do estudio; só acho que eles tavam ocupados tentando justificar o injustificável.

Pois tudo que sucede de cenas novas neste videogame demonstra que, além de apagar nomes, a Ryu Ga Gotoku está aficcionada na ideia de apagar legados.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Uma cópia gratuita de Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties para PC foi concedida pela SEGA para análise no Recanto do Dragão.