The Legend of Dragoon — o destino pertence aos vivos

RPGs antigos costumam ser o tipo de jogo mais memorável e bonito pra mim. Além do estilo, do sentimento e da música, eles são recheados de tramas longas e bem trabalhadas para passar com perfeição a emoção de grandeza de uma, de fato, grande aventura. Como fã do PlayStation desde pequena (por ser meu primeiro console), The Legend of Dragoon sempre chamou a minha atenção, mas a questão é que como é um JRPG de PS1, não dá pra só pegar e jogar — tem que se preparar bastante antes.

Dragoon é mais um dos RPGs lançados para combater o sucesso estrondoso de Final Fantasy VII, e de alguma forma esses conseguem ser os mais interessantes do console. Legend of Dragoon tem quatro grandes discos, gráficos absurdos para um jogo dessa escala e um dos combates mais criativos do gênero sem precisar alterar a fórmula para um jogo de cartas como Baten Kaitos (eu gosto de Baten Kaitos).

Legend of Dragoon

O sistema de combate pega direto nos fundamentos do que seria um RPG tradicional. Os personagens não podem usar magia, apenas itens mágicos, defender é de fato uma das opções mais fortes do seu arsenal e atacar é muito mais do que escolher no menu. E sim, também é mais do que em jogos como Mario RPG que você precisa apertar o botão no timing. Dragoon é conhecido por ir além.

Legend of Dragoon

O sistema de Additions te dá diferentes combos que serão seu ataque principal. Eles podem ter até dez hits, e o timing muda completamente para cada um. Na verdade o interessante é como os timings são difíceis, um dos maiores desafios na aventura é conseguir acertar esses benditos combos quando você precisa, mas a prática realmente leva à (quase) perfeição. Alguns personagens notoriamente tem Additions mais difíceis que outros, mas isso também vai variar pelo ritmo de cada jogador. E como se não bastasse a dificuldade de apertar X no tempo certo, os inimigos também podem contra-atacar no meio de um combo. Quando isso acontece, o timing do ataque fica ainda mais difícil pra embaralhar sua cabeça e você precisa apertar bolinha ao invés de X para bloquear e seguir seu golpe.

As suas Additions também podem evoluir de nível com o uso. Se você acertar ela inteira 20 vezes ela sobe de nível e pode chegar até nível cinco. Além do dano aumentar, o ganho de SP sobe bastante (mas depois explico o que é isso). Por vezes, ganhar novas adições envolve evoluir as que você já tem!

Só que isso é só sobre atacar. Algo muito legal de Dragoon é que ele te força a defender com frequência. Quando você defende, sua vida é recuperada em 10% da sua capacidade máxima, e você também fica invencível contra efeitos negativos de status do seu inimigo. E, óbvio, também diminui o dano que levaria de algo. Você precisa aprender a bloquear com frequência para sobreviver as Boss Fights do jogo que não perdoam.

E por “último”, o menu de itens. Similar à Super Mario RPG, você tem um limite de apenas 32 itens no inventário, o que de fato é bem pouco mas é talvez a melhor parte da dificuldade do jogo. Você poderia, em qualquer outro RPG, encher seu inventário de poções. Mas em Legend of Dragoon, se você fizer isso vai faltar espaço para suas magias, itens que recuperam Mana, antídotos (muito importantes nesse jogo) e Angel’s Prayers, que revivem seus parceiros. Para não ferrar o jogador demais, os itens em Dragoon nunca perdem a utilidade. A poção sempre vai recuperar 50% da sua vida, a poção mais forte que ela (Healing Fog) vai recuperar 100%. Os únicos itens de recuperar MP são os que te dão 100% dele de volta, e os status ruins são remediados com um ou outro antídoto, o Body Purifier e o Mind Purifier. Um é claramente usado para doenças físicas como veneno, enquanto o outro atua na mente tirando confusão ou desânimo. Também tem um que especificamente tira petrificação!

Você é obrigado a aprender a usar seus itens bem. Sem eles é praticamente impossível terminar o jogo porque mesmo existindo uma maneira alternativa de se curar, ela é muito limitada por balanceamento, forçando você a utilizar itens para tudo. Isso enquanto tem que decidir quais manter e quais jogar fora pelo limite de 32 slots. E enfim, chegamos à uma das mais impactantes mecânicas.

Um “Dragoon” é um herói que pode controlar dragões e tem poderes mágicos. Naturalmente nossos protagonistas são eles, cada um governando um elemento. Assim que você recebe sua primeira Dragon Spirit, que permite a transformação, você também recebe duas barras: MP e SP. SP é a barra de transformação, que quando está cheia permite que você se torne um Dragoon. No início só tem uma barra, mas a cada nível de Dragoon que você subir (só tem cinco) você recebe outra. Cada barra significa um turno a mais transformado, isso quer dizer que se você se transformar com apenas uma, vai fazer uma ação transformado e então voltar ao normal. O MP por sua vez é usado nas magias e a cada nível de Dragoon, você recebe mais 20 de MP. Suas magias não são grandiosas em número mas extensas na utilidade. A primeira do Dragão Branco de Prata já recupera a vida de um personagem em 100% e também pode reviver alguém com 50% da vida.

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O combate gira em torno dessas mecânicas em conjunto. Para se curar você precisa de um dos dois (ou três) personagens que podem curar, ou de itens. Mas mesmo esses personagens que curam precisam encher sua barra de SP com ataques normais para entrar na transformação, e também ter MP para usar suas magias. Isso automaticamente pede o uso de itens e manutenção dos seus recursos finitos. Aliados à isso estão as Additions, cada uma dando um número de SP diferente para todos os seus hits (significa que você só ganha tudo se acertar todos eles). Dessa maneira, as mecânicas acabam levando uma à outra. Um Dragoon por exemplo não pode usar itens ou se defender (embora já tenha defesa mais elevada para esses casos), então por vezes seria bom manter um personagem não transformado para usar itens nos outros. Atacar como um Dragoon não evolui suas Additions também, já que a transformação tem seu próprio combo (com mecânica de timing diferente). Falando na mecânica de timing, as magias também pedem que você aperte algo para fortalecê-las! Quanto mais apertar X, mais forte elas ficam, podendo facilmente dobrar o poder dela… se você não tem um teclado todo fodido como o meu.

Só que pouca gente costuma jogar RPG só pelo combate, e Dragoon tem muito a oferecer na sua trama. Talvez você não note tão facilmente no início, mas essa é uma história que tira tempo demais nos seus personagens principais. O mundo não é tão importante quanto os personagens para o jogador e a aventura faz questão de dar bastante foco para os mesmos. Além do seu próprio desenvolvimento e seus objetivos individuais que são desenvolvidos naturalmente com o avanço do enredo, os personagens conversam bastante entre si. Você vê a confiança entre o grupo subir e se transformar, vê os momentos de calma que eles tiram para falar sobre a jornada, entende seus receios e os vê aprender muito. E quando eu digo aprender não digo mensagens genéricas e esperadas (também tem dessas), mas ensinamentos únicos.

Dart tem como seu objetivo principal encontrar o “Black Monster”, um ser místico que aparece em momentos específicos da história e destrói tudo que vê. Seus pais foram mortos no último ataque desse ser, assim como toda sua cidade natal. Com o tempo ele forma mais inimigos, perde amigos próximos e acaba criando um sentimento de vingança que o impulsiona para frente, mas… os acontecimentos e tragédias da história mostram sutilmente para o protagonista como o passado é imutável, e a violência sempre leva à mais tragédia. A vingança não resolve os problemas da humanidade ou os dele, e machuca mais pessoas da mesma maneira que ele sentiu dor. A mudança no Dart é perceptível e você consegue ver a construção do caráter dele com o tempo, o que o torna um dos protagonistas mais legais dos JRPGs dessa época (pra mim).

Legend of Dragoon

As mensagens de cada história dos personagens visa sempre um mundo justo (e de esquerda), em que todos são livres. Mas o jogo toca em maneiras de criar essa liberdade e vai fundo nos seus conceitos (e ideais esquerdistas). Coisas como as características de um líder, racismo (fantasioso, claro), mágoas do passado, mas talvez a mensagem que eu mais gosto é de longe a mais engraçada de alguma forma.

Legend of Dragoon

Eu acredito em destino, e de certa forma Dragoon também, mas esse jogo não é nada sutil na sua opinião — o ser humano é o único que pode decidir o futuro do universo, não Deus. A mensagem linda de que o esforço e o espírito humano são tudo que precisamos para mudar o mundo, e não importa quão pequena a pessoa, o futuro está nas mãos de todos nós. Os Dragoons são um símbolo de revolução, que lutam contra possibilidades impossíveis para mudar o destino do universo. Mesmo que Deus queira destruir o mundo, os seres vivos vão fazer todo o possível para seguir vivendo. A mensagem de que o universo é incrível e lindo, que precisa ser preservado, é absurdamente bem pensada. Segundo as profecias, tudo nasceu apenas para morrer, mas a vida não existe dessa forma. O fluxo da água, o nascer das plantas, a reprodução dos animais, tudo aponta para o futuro. A vida precisa continuar e o universo segue para frente sem saber do seu eventual fim, como se não existisse. É isso que revolta os protagonistas quanto ao destino e é por isso que eles lutam — para proteger o que significa a vida pra eles. “Se o destino foi escrito na rocha vamos esmagá-la e escrever nossa própria história” (eu tentei traduzir mas vou deixar a frase original que faz mais sentido). Essa mensagem me deixou muito hypada, e nunca o sentimento de grandeza de estar lutando contra Deus foi tão bem executado pra mim. No meu coração os Dragoons ainda são uma bandeira de revolução e paz criadas pelo esforço humano. Podemos todos ser um Dragoon, e na história não havia qualquer outro grupo tão perfeito para ir contra o fluxo natural do universo quanto os Dragoons.

Mas nem tudo são flores… e mesmo os que não são não precisam ser espinhos também. A música de Dragoon é infelizmente esquecível, algo que não era comum na época do PS1 onde todo JRPG tinha uma trilha sonora absurda. E embora os gráficos sejam ótimos, eu não gosto muito da paleta de cor desse jogo. As coisas parecem muito sem vida, por algum motivo. A história se daria muito melhor com um tom mais vibrante, mas também faz parte do charme. Ainda assim as animações das Additions e magias são muito melhores que quase todo JRPG que eu já experienciei no PS1, e por vezes até no PS2! São realmente trabalhadas ao extremo e a coreografia merece um estudo mais aprofundado pelo quão criativa e bonita é. É triste que você sempre vai estar olhando pros quadradinhos se juntando ao invés de prestar atenção na animação, já que se você errar o timing ela nem vai rolar.

Legend of Dragoon tier list

Por fim, preciso dizer que amo demais os personagens. A minha editora odeia tier lists, já eu acho um jeito claro de dizer “esses personagens no topo são meu mundo”. Embora uma delas se chama Shana e fica difícil comentar sobre ela, eu amo a menina. E, bem, eu pretendia desenhar muito mais do que isso mas eu tenho dois desenhos dedicados à Dragoon, um eu fiz pro texto e outro eu só fiquei com vontade de fazer. Boa noite!

Legend of Dragoon Rosie
Legend of Dragoon Rosie