Agentes da INNOCENT caçam humanoinsetos denominados Xrafstar em busca de atingir higienismo moral. Uma briga de gato e rato, base infindável de conflitos.
Money for Girls: Amortized se passa no misterioso Xrafstar World, uma série de histórias multimídia por Porpentine, mas você pode jogá-lo sem conhecimento prévio. Esta versão da protagonista Cancer Prize é uma de muitas, no que Porpentine chama de constelações de câncer. Dessa vez, Cancer é uma garota! Trans ou cisgênero, você escolhe. Afinal, este jogo é for girls.

Sou muito fã do trabalho de Porpentine; de Armada até Vesp: a History of Sapphic Scaphism até Psycho Nymph Exile até With Those We Love Alive até Sunshowers Burn the Century Scionic até, bem, muitos outros jogos e histórias. Sua escrita é gráfica, pulsante e sufocante. Até quando mutilações e deformações não afligem os personagens, os incômodos e intimidades de ações mundanas ainda tomam conta das palavras. A carne revela todos seus prazeres e desprazeres com os cinco sentidos; especial o tato.
As histórias sobre Cancer Prize, independente de sua encarnação, são doloridas e cheias de autoproclamados finais ruins. Sempre a um parágrafo de uma cicatriz. Em Money for Girls, você é responsável para que ela cambaleie até seu próximo destino.

Money for Girls: Amortized foi lançado para PC em 24 de agosto de 2026, desenvolvido por Porpentine e Vich.
A estrutura do jogo é aberta e multifacetada. A mãe de Cancer, Maiolica, deve 1000 xeraphim aos aristocratas. O trabalho de nenhuma das duas as permite adquirir esse tipo de dinheiro em 12 semanas. Resta a Cancer arranjar a grana e investigar de onde veio essa dívida. Ela é uma garota detetive treinando como fotógrafa forênsica na Innocent Academy. Um dia ela se tornará uma Agente da INNOCENT. Suas habilidades à levarão a falhar mais que suceder, e essa é a graça de jogar como ela.


A customização de Cancer resulta em nomenclaturas, cenas, e opções distintas para encaixar em sua rotina. Ser Gamer dá só vantagens (a experiência de campo em jogos da Telltale finalmente vai voltar à tona); ser Horse Girl torna a prosa muito divertida e embeleza algumas cenas, pelo menos se você também for uma por trás de seu computador; ser Relaxada e ter TOC são características incompatíveis, assim como ter Endometriose e ser Boyborn. Ainda não sei o que escolher um signo ou especialidade faz com o jogo. Além destas escolhas iniciais, a garota adquire novos traços decorrentes de suas escolhas, o que te levará a profundezas cada vez menos escapáveis.
Chegar ou não ao seu objetivo de 1000 xeraphim é menos relevante do que explorar seu grande leque de opções — na minha primeira jogada, demorei 10 semanas para adquirir um mísero xeraphim. A Cancer tem outros métodos. Ou pode ter.

É difícil caracterizá-la como personagem. Suas interações podem ir para resultados totalmente opostos, e a dualidade das rotas da bestie/bully Agnel e da sugar mommy Felicity deixam isso bem claro. O que ela está disposta a aceitar ou revidar é a prova de sua maleabilidade. Inclusive, se você não tiver interesse nos aspectos eróticos e sangrentos da obra, dá pra passar pelo jogo de forma relativamente inocente… mas você não consegue impedir os pesadelos de te impalarem numa barra de pole dancing. Ou das dores financeiras de a diminuírem. Ou aos particulares hobbies dela permanecerem como opção de atividades para fazer em casa. Inclusive, são quase obrigatórios para uma Cancer com endometriose, que perde seu contador de higiene e humor toda semana. Mas aí você tem que escolher jogar com ela assim.

Money for Girls te convida a sair dos trilhos. Nenhuma das minhas múltiplas jogadas foi como planejei. Não tem nem porque tentar, na verdade. Culpo a curiosidade investigativa da Cancer. A teia narrativa se abre e revela novas abordagens a toda escolha de evento. Um evento visto em uma jogatina pode ser escrito de outra forma com outras características em outra, e assim ganhar novas conotações. Significa coisas diferentes para Cancers diferentes. Focar na busca por dinheiro descarrilha outros caminhos, mas tudo pode ser feito pela metade. Você pode tentar largar da vida de sugar baby depois de um tempinho, ou desistir da Agnel, ou ignorar a dívida da sua mãe.

De qualquer forma, a prosa irá te sufocar. Momentos pessoais e pequenos sentimentos serão destrinchados e expostos de dentro para fora. As moscas que rodeiam uma Cancer que negligenciou sua higiene não são só de enfeite. Ela não consegue ser normal quando a Agnel derruba um lápis em sala de aula. Imagina no resto da vida dela.

Mesmo sem TOC, a Cancer terá que lidar com abuso, drogas, discussões irresolúveis, e traumas passados. Flashbacks podem atacá-la a qualquer momento. Ir dormir é uma ação manual que envolve clicar múltiplas vezes para fechar os olhos ou enrolar e encarar a parede. É muito fácil ficar sem dinheiro.
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Mas amar não é tão difícil; se Cancer se aproximar da sua colega Agnel, ela consegue ver raios de luz sempre que quiser. Só ligar pra ela e marcar de sair em dezenas de eventos possíveis. Um pouco de bullying, um pouco de humilhação, um pouco de medo… e bastante afeto!

Os momentos compartilhados pelas duas são sacarinos no maior estilo Porpentine, onde até os tropeços e machucados são amáveis, e tornam o vai e vem do relacionamento ainda mais verossímil. Os segredos delas estão seguros uma com as outra.
Investigar os mistérios é um ato picotado entre as rotas; nenhum final vai te dar a visão completa da dívida ou das personagens. A mãe de Cancer só se torna mais indecifrável conforme você descobre o seu passado. O jogo expõe bastante dele, mas mesmo os maiores detalhes não são o suficiente para algumas das ações dela. Ela é uma… coitada? Bem, pelo menos a Cancer é certificadamente uma pobre coitada. Dá muita dó ver ela chorando quando o humor dela está quase no mínimo.

Eventos especiais contarão para o desbloqueio permanente de roupas que podem ser usadas em qualquer jogatina, e também afetam eventos do jogo como traços de personalidade. O processo requer que você vá longe nos específicos de uma rota e se deleite nos infortúnios que estão pela frente.
O trabalho, ou melhor, a caça pelo dinheiro é considerado um elemento corruptor em Money for Girls. Não que vai destruir ou levar à ruina, mas que vai chegar muito perto. Um fetiche por sofrimento e submissão. O vício em açúcar. A primeira opção oferecida para seu ganho envolve rolar na lama como um porco para que Agnel faça Cancer engolir as moedas que precisa para salvar sua mãe. Ela pode chegar ao limite da degradação e morrer no processo, antes mesmo de poder te explicar as mecânicas do jogo. Se ela sobreviver, vai ter que expelir seu dinheiro sujo antes de poder usá-lo.

Maiolica diz que “todo edifício é uma fábrica”. As paredes delimitam as possibilidades e o senso de realidade de quem está ali, e não é a toa que Cancer se lembra dessa frase ao chegar no distrito de negócios, onde o dinheiro é feito e repassado de unha em unha. Não existem mais locais para descansar, ou tampouco permanecer; todos estão recheados de espinhos. As pessoas andam de edifício em edifício sem parar; vão de paredes a paredes. Um mundo diminuto.

Fico feliz com o primeiro final que peguei, o GIRLS END. Ainda faltam dois para mim, mas este foi meu favorito. A Cancer Horse Girl que se distraiu tantas vezes que nem conseguiu colocar sua investigação em prática direito. Que mal conseguiu um tostão na sua busca, e que sofreu e sofreu e sofreu e sofreu e nem tinha tesão pelo seu sofrimento. A pervertida esquisita gamer que ama sua namorada e sua mãe incondicionalmente. Possuo um vício por estas histórias açucaradas.

Em contrapartida, também fiquei feliz ao pegar o BUSINESS END, ou a árvore de rotas que este caminho permite. Outra Cancer, uma de segredos e vergonha. Que foi tão dominada que mal conseguia enxergar o que estava na sua frente. Que perdeu toda sua autonomia para que a conquistasse de volta. Ainda não sei se ela sentiu ou não um resquício de prazer no seu sofrimento, mas o açucar não a fez bem.

Uma cópia gratuita de Money for Girls: Amortized foi concedida por Porpentine para o Recanto do Dragão.



