STEINS;GATE RE:BOOT — as voltas e revoltas de Steins | Análise

STEINS;GATE RE:BOOT — As voltas e revoltas de Steins | Análise

Lembre-se: Akihabara, maid café, cosplay, waifu, moe, trading card games, cibernética, fóruns anônimos, lendas urbanas e teóricos da conspiração. É entre todos esses aspectos da cultura otaku que, em 2009, lança Steins;Gate. Na década que se segue, a visual novel embaralha-se com a mesma cultura otaku que a serviu de nascedouro para criar uma relação simbiótica onde consolida na cultura otaku os mesmos símbolos que tomou de empréstimo, principalmente após o lançamento e sucesso da sua adaptação em anime em 2011.

Okabe, Daru e Makise em frente ao computador surpresos com uma descoberta. - Steins Gate Re:Boot análise

Sendo justo, nem tudo foram empréstimos. Por exemplo, houve a importante adição do refrigerante Dr. Pepper, responsável por tirar dinheiro de muitos otakus brasileiros que esbarraram com “a bebida dos intelectuais escolhidos” no bairro da Liberdade em São Paulo.

Eu fui um desses otakus que assistiu Steins;Gate e bebeu Dr. Pepper, mas confesso que nunca dei uma chance para o jogo até a possibilidade de escrever sobre seu remake surgir de supetão. Agarrei. Por quê? Devido meu interesse pelo gênero e não tanto por Steins;Gate em si, pois a paixão que um dia havia existido dentro de mim por essa história já era um pequeno fogacho prestes a extinguir — provavelmente a goles de Dr. Pepper.

Se hoje consigo dizer “El Psy Kongroo” com o mesmo ânimo de mais de 10 anos atrás, Steins;Gate Re:Boot é o culpado. Para ser mais específico, Mamoru Miyano é o culpado, porque ele consegue dizer “El Psy Kongroo” com até mais ânimo do que 10 anos atrás em sua interpretação do protagonista Rintaro Okabe. Com certeza, um dos principais chamarizes (e acertos) desse remake é a decisão de regravar todas as falas com os mesmos atores e atrizes, porque todos entregam excelentes performances mais uma vez.

Ilustração de apresentação do membro de número 1 do laboratório: Okabe Rintaro, com a voz de Miyano Mamoru.

Pode soar uma opinião estranha, ainda mais por causa da onda de remakes questionáveis que vivemos, mas há muitas ótimas decisões criativas como essa nessa nova versão da história se você permitir que o jogo viva fora da sombra do original.

Primeiro, a diferença óbvia é o visual: temos cenários mais limpos com cores vibrantes sem o aspecto melancólico do original; os personagens perdem aquele charme e estranheza das proporções desiguais, mas ganham uma tridimensionalidade que parece emprestada de modelos de VTuber com uma leque considerável de expressões que se alternam suavemente durante os diálogos.

Claro que minha opinião é enviesada, porque não joguei o original, mas prefiro enxergar essa diferença de estilo como perspectivas diferentes de uma mesma história do que tentar responder “qual o melhor”. O conjunto de expressões dá uma nova vida às interações entre os personagens e reforça as novas gravações dos diálogos, uma combinação que, por si só, já justifica o suficiente a existência independente de Steins;Gate Reboot.

Além disso, é também uma decisão interessante do ponto de vista simbólico que o jogo se utilize dessa estética VTuber, um dos maiores fenômenos da cultura otaku atual, e que o Steins;Gate original deve ter utilizado de alguma forma em uma realidade alternativa onde surgiu apenas 10 anos depois.

Screenshot de gameplay, onde o jogador está conversando com Daru enquanto segura seu telefone. O protagonista diz: "Daru, comece a operação!". - Steins Gate Re:Boot análise

É uma nova lente que permite viajarmos no tempo até Akihabara de 2010 e conhecer novamente o Laboratório de Gadgets do Futuro e todos seus membros por outra perspectiva. O design de personagem, os cenários vibrantes, as regravações e as expressões dos personagens movem consideravelmente trazem um foco maior nos coadjuvantes que aqui estão mais carismáticos do que nunca.

Essas mudanças me fizeram apreciar ainda a grande contribuição que o elenco de Steins;Gate faz a história. Todos são extremamente carismáticos e trazem algo de interessante sempre que surgem em tela, ao ponto que eu afirmaria que a longa introdução de todos personagens que depois vão constituir o núcleo da trama é a parte mais consistente e forte do jogo.

Isso me leva à outra grande mudança, o roteiro. Entre o lançamento deste remake e o lançamento da visual novel original, ocorreu o infame Steins;Gate Elite, uma reinterpretação que mesclava cenas do anime com o formato de visual novel e — deixando de lado todas questões suscitadas por isso — aqui ele nos interessa, porque Steins;Gate Re:Boot utiliza o script desse e não do original.

O caminho mais fácil é direcionar um olhar torto a decisão, mas há algumas considerações a serem feitas. Antes de qualquer coisa, é necessário entender o tipo de mudança, porque há muitas formas de se modificar um roteiro. Para exemplificar: pouco tempo atrás, escrevi sobre o remaster de Ever17, lançado também pela Spike Chunsoft, o qual é uma remasterização não do original, mas do remake para Xbox 360 e que alterou a estrutura do roteiro de forma considerável ao mudar ordem, modificar, adicionar e remover eventos. Um caso complexo de se analisar.

O script do Elite, por outro lado, suprime uma quantidade considerável de pensamentos do protagonista, talvez em uma tentativa de se aproximar do anime e tornar mais conciso. Essa base é retomada por Steins;Gate Re:Boot, que adiciona algumas cenas novas e adapta um audiodrama da franquia em uma rota adicional.

Ilustração de Makise, Suzuha, Okabe, Mayuri e Daru andando de bicicleta em um dia ensolarado. - Steins Gate Re:Boot análise

Não posso dizer se ficou melhor ou pior, por motivos já esclarecidos acima, mas posso comentar sobre o material que joguei. Uma grande surpresa por ser uma narrativa sci-fi que não deixa as piores tendências do gênero dominarem seu texto — por exemplo, o excesso de explicações científicas ou teóricas. O que encontrei por um texto delicioso que quase nunca se torna enfadonho e sabe equilibrar bem seus elementos. Além disso, essa supressão dos pensamentos do Okabe mescla bem com o maior destaque do elenco de coadjuvantes trazido pelo novo visual.

Mas, de forma alguma, quer dizer que o protagonista é eclipsado, porque o trabalho feito por Mamoru Miyano é surpreendente por manter a mesma vitalidade de seus trabalhos anteriores. O que destaca a figura fascinante que é Rintaro Okabe, ou melhor Hououin Kyoma, o cientista maluco que carrega os momentos mais comoventes do jogo, seja pelas amizades que ele cria ao longo da história, seja pelas diversas tragédias que o acometem.

De resto, Steins;Gate continua excepcional: a mecânica de mandar mensagens de texto pelo celular que, apesar de um tanto obtusa quando usada narrativamente, é um charme que adiciona um ritmo próprio ao jogo; as várias camadas da tragédia temporal que são trabalhadas com criatividade; o encaminhamento dos romances que finalizam a história. Tudo isso torna essa visual novel tão única e ainda está aqui, somente numa perspectiva diferente.

Acredito, inclusive, que poderiam ter sido até um tanto mais radicais quanto às mudanças, porque o caminho para o final verdadeiro continua o mesmo, apesar das mudanças de qualidade de vida. Ou seja, para conseguir, ou você terá que ler um guia ou encarnar Houhouin Kyoma e tentar as diversas possibilidades de realidade até encontrar seu destino, o que no papel é uma ideia metalinguística muito interessante, mas na prática é um trabalho chato e repetitivo que provavelmente poucas pessoas de fato fizeram sem atalhos.

De qualquer forma, a existência de Steins;Gate Re:Boot me trouxe para um mundo paralelo onde finalmente dei a chance que essa visual novel merece e que talvez nunca tivesse ocorrido (pelo menos não de forma tão breve).

Ilustração de Okabe com foco em seu rosto de perfil, enquanto pessoas desfocadas passam de fundo. Um texto abaixo denota o pensamento de Okabe: eu não sei o que o futuro nos reserva.

Uma cópia gratuita de Steins;Gate Re:Boot foi concedida pela Spike Chunsoft para o Recanto do Dragão.