Tomodachi Life: Living the Dream é um videogame onde você pode replicar seus amigos, personagens fictícios e até celebridades. Talvez isso não lhe seja uma grande surpresa. Na mão da Nintendo? Isso sim pode significar alguma coisa diferente. Não apenas pela reputação da empresa, mas principalmente pela hiperpopularidade do Nintendo Switch e, em especial, de Animal Crossing New Horizons.
Interações sociais são um compilado de coisas e sensações que só sabemos vivendo, e a instrumentação desses processos é uma dor de cabeça para o desenvolvedor de simulacros como esse videogame. Mas aquilo que gera um fascínio em minha mente com a vida dos amigos é outra coisa: o ciclo infinito de reprodução e reinterpretação de um ser humano a partir de experiências individuais.
O que eu quero dizer com isso é que, neste exato momento, existem mais de cinco réplicas de mim mesmo, com os próprios trejeitos que a pessoa que me reproduziu acredita que eu tenho. E eu não tenho controle algum dos meus replicantes, além de apenas observar e sentir…
Tomodachi Life: Living the Dream é um jogo de simulação de vida desenvolvido e publicado pela Nintendo, lançado no dia 15 de abril de 2026 para Nintendo Switch 1 e 2. Você recria e prende um mímico de seus amigos numa ilha virtualizada que você pode visitar a hora que quiser. É literalmente a vida de amigo: vivendo o sonho.
Você sabia que os Mii foram criados especificamente pelos criadores de Tomodachi Life? Doidera, né? A intenção era fazer um jogo sobre Fortune Telling para mulheres adultas em 2005 com a Nintendo SPD Group, mas tanto Satoru Iwata quanto Shigeru Miyamoto ficaram tão aficionados pelos Miis que eles se tornaram parte essencial do marketing do Nintendo Wii.
Se você viveu esse momento, sabe que muitas empresas também tentaram replicar isso, como a própria Microsoft e a Sony; nenhuma delas conseguiu realmente superar a Nintendo. A motivação disto é a simplicidade e uniformidade dos Mii.

O Mii originário não se fundamenta em coisas complexas além daquilo que estereotipa a pessoa que é replicada. É justamente nesse rótulo que você consegue reconstituir uma pessoa de qualquer nacionalidade razoavelmente. Nunca exatamente igual, mas mii-metizado; simplificado.
Claro que essa explicação se trata mais da customização do menu de seu Nintendo Wii, Nintendo DS, Nintendo 3DS, Wii U e Nintendo Switch 1 e 2. Em Tomodachi Life: Living the Dream, para além de mais opções formais de cabelos, elementos e mesmo a customização por inteira do rosto do seu personagem, o limite é você. Por bem ou por mal.
Entender a mentalidade do Mii é tentar entender o mundo de Tomodachi Life. Denominado por seus criadores como a piada interna definitiva (the ultimate inside joke), tudo que você faz na sua ilha não tem uma função tão utilitarista e sistêmica quanto um The Sims ou mesmo um Animal Crossing. O propósito do jogo tá numa brincanagem.
Quando Tomodachi Life começa, você cria seu primeiro Mii, que provavelmente vai ser uma cópia de ti mesmo. Além da customização e traços corporais, você define, através de um espectro de zero a dez, a personalidade.
Funciona assim, por exemplo:
Pensamento: sério ao “tranquilão”.
Definindo-se esses critérios, o jogo decide o que você é. Tem jeito de andar, falar, “exalar”, etc etc. Definir a voz do Mii é um caos notório.
Eu tenho um sério problema de definir quase todos os membros da minha ilha como “confiantes” e “ambiciosos” — seria culpa minha enxergar confiança e desejo naqueles que eu considero em meu coração?

Define qual será o nome de você como a divindade que manipula todos os replicantes nessa ilhota próxima à Manhattan — sim, o jogo Tomodachi se passa na região de Nova York (ou uma cópia exata) — e é isso. Um veículo de mídia vai se criar e seu primeiro Mii vai ser o apresentador. Vai ser necessário alimentá-lo, então uma mercearia vai se abrir!
Crie os próximos Miis e, de pouco a pouco, o comércio vai se expandir com lojas de roupas, tapeçarias, usados, parques de diversões… o mercado se expande com dólares e pesos, e o dinheiro continua caindo na sua mão, mesmo que ninguém esteja de fato trabalhando. Isso vai subir o nível da sua fonte dos desejos que te permite adquirir várias coisinhas, como traços de personalidades, decorações e viagens internacionais!

Carregue com suas próprias mãos divinas os seus Miis para forçá-los a ter interações engraçadas, alimente-os, dê carinho e os coloque para ter os traços que você acredita que eles deveriam ter. Sempre que você os presentear sob esses critérios, a frase “I feel a bit more like myself” vai saltar em sua tela. E, se você se sentir como um bom mimetizador de seus Tomodachis, eu tenho certeza de que você vai ficar grato, pois sabe que realmente é verdade.
Enquanto acompanhava em minhas redes sociais as criações mais absurdas, como a réplica exata de um ônibus biarticulado curitibano, o máximo a que eu cheguei foi um momento em que, obrigado a criar algo, trouxe à vida um pedaço de bolo com pequenos desenhos pixelados arredondados que eu apelidei de “Morango do Love”. Isso, para mim, já é o suficiente, sabe?

Eu confesso com modéstia que consigo replicar com certa decência as pessoas que conheço, ou conheço em certos níveis mais parassociais, como no caso de participantes de reality shows. Não sou o melhor, nem o mais esforçado, mas o exercício dessa recriação me é sempre gratificante. Eu já vi algumas ilhas com Miis que carregam a falta de sensibilidade de seus autores, e isso deve ser um sentimento difícil de se lidar.
É no caminho da piada interna que o jogo de um é literalmente impossível de ser idêntico ao outro, já que, com as mesmas bases, minúcias desviam e se colidem. Em minha ilha, alguns dos assuntos mais frequentes eram “playing games”, “making drama” e “BBB”. E realmente esses assuntos colidiram com aquilo que eu escutava enquanto jogava Tomodachi Life.
É uma pena que essas frases não sejam possíveis de se escutar em minha língua nativa sob os moldes dos escrachos que esse videogame forma. Seria perfeito esse negócio em português. Se a minha apresentação sobre o jogo parece simples, é porque a sua essência está focada plenamente nessa sensibilidade e que algum de seus sistemas seja o suficiente para você se apaixonar.

Recriando amiguinhos, ou pessoas famosas e/ou fictícias, criando interações engraçadinhas, mas repetitivas; ou só na rotina de criar sua ilha ideal com pequenos complexos imobiliários que comportem seus amigos; ou só deixar cada um vivendo tranquilo em sua própria ilha.
Sugestão: deixe seus amigos isolados num canto, é realmente engraçado! Até que um deles materialize o poder do teletransporte…
Em Tomodachi Life: Living the Dream, o ato de viver o sonho é baseado na sua própria construção… de sonhos. E, para viver tais sonhos, é preciso se construir através deles. A fome pelo acúmulo de coisas e “conteúdos” pode acabar deixando seu estômago bem vazio.
Não que seja um crime inconstitucional, talvez nem sequer importe, mas, caso você tenha 80 residentes nas primeiras horas do jogo, isso implica nos Mii se apresentando… 3.160 interações. Isso são muitas cenas engraçadinhas para a tela do seu videogame!

A ideia que eu trouxe para mim mesmo é a de uma boa-fé modesta, jogando de pouco em pouquíssimo, em jogatinas pausadas e seletas. Sendo assim, visitar meus amigos se torna, de algum modo, uma lembrança daquilo que habita em minha mente. Do jeitinho que eu penso que cada uma daquelas pessoas funciona.
Alguém que não deveria se apaixonar por certo alguém se apaixona, uma confusão generalizada entre grandes amigos, ou só as pequenas ironias de ver a reinterpretação de coisas que já aconteceram na vida replicada pela virtualização dos meus amigos. Isso, por si só, já vale a exploração dessa vida.
A vida imita a arte e blá-blá-blá. Reduzindo o escopo dos meus próprios pensamentos, de algum modo jogar Tomodachi Life me fez abraçar algumas sensações e individualidades que eu reprimia e me fez sentir um pouco mais comigo mesmo, apesar de tudo.

Uma cópia gratuita de Tomodachi Life: Living the Dream para Nintendo Switch foi concedida pela Nintendo para análise no Recanto do Dragão.










