Subversive Memories — nostalgia, uma falsa panaceia | Análise

Subversive Memories Análise

Certa vez, um professor de história contou para a turma qual a importância de seu ofício. “É estudando o passado que evitamos repetir nossos erros com o futuro”. SUBVERSIVE MEMORIES não é um mero survival horror brasileiro, mas é também um alerta. Um aviso de que, em momentos de crise, a desesperança instiga conflito; os radicalismos se deslocam; o ódio se faz de necessário; a nostalgia se faz de solução.

Nossa visão de possibilidades futuras se esmaecem, saem do campo de visão. As oportunidades de reconquistarmos o equilíbrio global/nacional se tornam cada vez mais escassas. O mundo cai num eterno ciclo de desespero, e as elites degustam do amargo sangue que goteja das terras queimadas e da polarização caótica e infrutífera. Resta a indagação que dá subtítulo ao livro “Realismo Capitalista” de Mark Fisher: “é mais fácil imaginar o Fim do Mundo, ou o Fim do Capitalismo?“.

Ano de eleição. Não há momento melhor para nos recordarmos desses riscos que agora.

Subversive Memories foi produzido pelo brasileiro Akira (Southward Studio) e conta a história fictícia de Renata, que se sente inexplicavelmente vazia desde sua infância, e agora se depara com os horrores da Ditadura Militar de 1964. Em busca de respostas, acaba encontrando uma base militar repleta de memórias, respostas, registros e rastros das liberdades cerceadas e das vidas exterminadas através da implacável opressão do regime.

Pra contar essa história, Akira faz uso de uma série de símbolos familiares à grande parte da população brasileira — Fuscas da Volkswagen, chãos de mosaico de cerâmica, cartas de jogo do bicho e até programas de rádio reais da época — todos retratados na estética nostálgica low-poly semelhante aos jogos da era PS1, com muitas similaridades à Silent Hill e Signalis, particularmente. Uma cápsula temporal de elementos que contribuem para a construção de um mundo mais imersivo, mas cuja ameaça se comprova atemporal: o risco da atração pelo fascismo como panacéia.

Além de coletar incontáveis documentos (grosseiramente censurados pelo regime militar), Renata também conta com uma interessante mecânica de “mediunidade”, conferindo-lhe a capacidade de revisitar momentos-chave da vida de uma alma aflita que faleceu no local. É com artifícios assim que Akira dá corpo e estrutura aos horrores do mundo de Subversive Memories, detalhando as injustificáveis brutalidades e violações praticadas ao longo da ditadura que resultaram na calamidade [sobre]natural vivida por Renata.

Em termos de jogabilidade, Subversive Memories trabalha com um estilo de combate propositalmente truncado e exploração não-linear muito semelhante aos clássicos do survival horror, fazendo uso de uma lanterna capaz de dispersar espírito-sombra (à la Alan Wake) e iluminar o breu absoluto da madrugada. Não bastassem tais empecilhos, também lidamos com uma série de enigmas a serem resolvidos.

Ressalto o último ponto pois, apesar de o jogo nunca te incomodar com relação à gestão de inventário, Akira se dispôs a trazer uma experiência muito acima da média com a complexidade de seus puzzles. São exigidas inferências musicais, informações histórico-temporais (como datas importantes da política brasileira), alusões à análise de sonhos do jogo do bicho e dados da seleção brasileira da época, dentre inúmeras referências histórico-culturais para solucionar puzzles excepcionalmente criativos. Fazia tempo que não sentia necessidade de me esforçar assim – pense em algo quase chegando nos puzzles de Silent Hill 3 em sua dificuldade mais alta. Se você sabe, você sabe.

Sendo a obra de um estúdio de um único trabalhador, Subversive Memories oferece uma obra culturalmente rica e filosoficamente emancipadora. Tudo no título é de alguma forma conectado à investigação histórico-cultural — nosso passado, como nação, permanentemente cicatrizado pelo golpe militar de 64; a exploração documental, reescrita e censurada sem fim; e mesmo o poder de médium de Renata, que a possibilita revisitar histórias de si e de outros, mas também investigar as influências e marcas de violência sofridas por seus familiares. É uma obra sensível, mas que conta a realidade de muitas famílias… histórias essas que, se não recontadas, relembradas e revisitadas, podem nos levar aos exatos mesmos erros do passado.

Por fim, deixo uma recomendação pessoal: PROCURE FAZER O FINAL VERDADEIRO. O jogo possui dois finais e, para obtê-lo, é necessário encontrar todas as cartas de cigarro dos bichos e então entregá-las para uma certa figura misteriosa. Ele não apenas oferece respostas completas sobre o que atormenta nossa protagonista, mas também é um belíssimo, mesmo que breve, manifesto pessoal de Akira para as gerações de hoje e as que virão.

PAZ é uma palavra com diversos conceitos e significados. Um objetivo idílico, elusivo, que exige meios para alcançá-lo, mas cuja forma muda radicalmente com os tempos.
Quem tem direito à paz? E quem a exerce? O mundo? Uma nação? Uma coalisão?
A paz é um direito de todos, ou uma utopia exclusivista? Ela nasce de colaborações, ou de sacrifícios?

Nunca confie em quem afirma ter as respostas para essas perguntas, pois sob o pretexto de “paz” é que foram criadas as maiores atrocidades humanas.