Titanium Court — chaves da (v)ida e partida | Análise

Titanium Court — chaves da (v)ida e partida | Análise

Titanium Court, de AP Thompson (que também trabalhou em Consume Me, do ano passado), é um jogo multigênero para quem tem multigostos. Uma de suas descrições listadas nos créditos é “um match-3 para pessoas que gostam de ler”. Os que já desejaram ser desorientados por humor observacional absurdista enquanto buscavam uma boa pontuação no Bejeweled ou Candy Crush. Poxa, até a tag roguelite que ele possui vem com expectativas de pouca narrativa, ao menos durante uma run. Ah, o jogo foi lançado em abril de 2026 na Steam, publicado pela Fellow Traveller.

Os diálogos de Titanium Court são espalhados antes, durante, e depois de uma partida, e AP deixa claro que este não é feito para ser um jogo que dura para sempre. Vi 119 cutscenes (ou seriam eventos?) antes de chegar aos seus créditos, mas não foram todas, nem de perto. A protagonista é uma mulher tão perdida quanto o jogador que é transportada para um mundo de fantasia cheia de fadas, que se vestem como humanos e possuem cabelo rosa. Pelo menos parecem ter cabelo rosa… a paleta de cores limita os contrastes principais aos tons escuros apenas nos rosas, beges, e azuis. O campo onde você joga conta com algumas cores a mais, mas a vida na corte é limitada a estas mesmo. A densidade de pixel e as limitações são beeeem Apple II (Faith ganhou um primo)!

Titanium Court análise

Ok. Não vamos por partes. Vamos falar de tudo junto. Ou, neste caso, continuar falando de tudo junto. Os dias da protagonista no universo novo em que habita consistem em governar as fadas. Ela virou a Rainha daquele lugar! Mas suas ações se dividem entre as vindas de sua própria vontade e as orquestradas pela fada irreverente Puck e as orquestradas por ti, o jogador! A coitada mal consegue gerenciar os pedidos e personalidades dos habitantes de seu reino e também deve guerrear. Todo santo dia tem guerra. Ela não sabe de onde vem nem a guerra, nem seus inimigos, ou o fato dos locais que cercam a corte mudarem de posição livremente. Puck só deixa a Rainha fazer uma pergunta uma vez por dia, e apenas quando ganha a guerra.

O mundo se recompõe e reinicia todo dia, mas este não é um loop temporal. Este lugar só desaba e se reconstrói para que todos se preparem para a próxima guerra. Os benefícios de ganhar uma guerra, seja numa vitória ofensiva, defensiva, econômica ou especial são, em maioria, descobertas. Os elementos de roguelite que permeiam neste semi-roguelike — novos chefes, classes, e cartas. Tudo isso existe em Titanium Court, mas você também vai poder perguntar pro Puck sobre o que está acontecendo quando ganha! E tentar achar uma forma de escapar! E perguntar pro seu Inimigo o que são as malditas maldições que assolam o lugar! E contribuir com o que sobrou de seus recursos pra uma lojinha! E ouvir fofoca! E explorar a corte! E resolver brigas entre o maior fã de conforto e a maior fã de conflito! Fiquei do lado do conforto pois sou ruim em jogos deste tipo, seja lá qual for o tipo de Titanium Court!

Titanium Court análise

Numa dada partida, a base do jogo ainda será igual. Você não vai ganhar buffs ou nerfs permanentes de cara, mas pode aumentar seu conforto ou conflito que fazem exatamente isso. As mudanças radicais são semi-opcionais!

As partidas funcionam assim: Se tomou café da manhã, começa com +10 de um recurso aleatório. São quatro no total: comida, água, madeira e pedra. No tabuleiro, sua corte está presente entre quadrados com estes recursos, inimigos, e alguns locais especiais como lojas, baús, ovos e placas de trânsito. Começa o match-3! Você ganha os recursos ao juntar três ou mais deles, e pode fazer o mesmo com cortes inimigas, que já chegam mostrando os inimigos que vão aparecer. Algumas possuem zero inimigos. Quanto mais junções causar em um só deslize do mouse, mais tempo de match-3 ganhará. 

Quando ele acaba, Titanium Court vira um tower defense de carta. Cada classe vem com algumas iniciais que sinergizam com seu conceito, e diversas outras podem ser encontradas numa run. Cartas gastam recursos. Se existirem quadrados especiais no tabuleiro, você pode interagir com eles antes do combate. Quando estiver pronto, você clica em play e o combate se inicia. Os bixinhos são muito burros, então é bom tomar o devido cuidado na sua estratégia para que eles não se percam no tabuleiro e falhem em defender, atacar, ou até coletar os recursos que você queria.

Você avança em múltiplos tabuleiros com mudanças de terreno, inimigos, e construções especiais até chegar no chefe, que é aleatório de início — você pode escolhê-lo com um item mais pra frente. Titanium Court é mais ou menos isso.

Digo ~mais ou menos~ pois AP não vai te deixar em paz. Seguindo a obsessão desse jogo por baseball: são múltiplas bolas curvas por partida. Uma partida meticulosamente planejada é bem difícil de executar, pois a narrativa de Titanium Court avança enquanto você joga. Novos elementos, por vezes vistos apenas uma vez, são introduzidos enquanto outros são removidos. É mais fácil se acostumar com a barragem de mudanças introduzidas do que com as perdidas. O jogo aumenta exponencialmente, e depois encolhe tão rápido quanto.

Titanium Court análise

As gracinhas vão tão longe que, em múltiplas de suas runs bem sucedidas, o jogo te pede pra pular o chefe para que você encerre a partida ali mesmo e ouça uma música cantada por AP Thompson em pessoa, ou ao menos em alguns bits e umas três cores. Se você está com aquela build perfeita para conseguir uma vitória especial no chefe que estava prestes a enfrentar, talvez esteja tentado a recusar a oferta… mas você não tem todo o tempo do mundo, então talvez seja bom aproveitar e ouvir a voz charmosa e meio nasal do AP performar canções sobre uma variedade de personagens.

Titanium Court análise

Aprecio como Titanium Court te desorienta numa estrutura tão rígida. Você, sim, vai passar seu tempo num loop definido de gameplay: fará sua mini exploração do castelo na manhã, jogará a partida e, se ganhar, explorará o castelo com detalhes de noite. Existe uma rotina nesta loucura. Sempre que quiser, vai poder tomar café da manhã para ganhar um recurso extra, vai jogar ao menos boa parte de uma partida, e quando ganha vai checar a briga entre Conforto e Conflito, ver como consegue ajudar o gato, checar o placar entre você e seu Inimigo, e terminar a noite com uma pergunta pro Puck. 

Estes pequenos atos são recheados de novos diálogos que avançam as histórias de cada uma das fadas e ajudam a Rainha a se conectar com sua nova vida na corte. A repetição inerente ao roguelike é bem menos presente quando cada momento desorganizado da geração aleatória de terreno e situações se dissipa em conversas, recontextualizadas, e reviravoltas a todo momento.

Titanium Court análise

A escala de Titanium Court parece inalcancável de início. Você precisa encontrar no mínimo quatro chaves (existem bem mais, mas não vou falar quantas!) para abrir os portões da corte e vazar. É possível chegar neste ponto meio cedo. O jogo não quer que você faça isso. Pegar um final significa que seu save inteiro irá se tornar apenas uma coleção de memórias — você não pode continuar jogando nele após a conclusão. Você precisa fazer valer!

Spoilers nos próximos dois parágrafos!

Mas, então, as coisas complicam. Quanto mais você joga Titanium Court, mas você o esvazia. As cenas inéditas vão perdendo frequência, mecânicas momentâneas dizem adeus, espaços entre avanços narrativos se tornam mais largos. O jogo, só pra brincar mais ainda contigo, remove por um tempão sua habilidade de escolher terminá-lo. Suas chaves são roubadas. Você deve recuperá-las o mais rápido possível. Puck te oferece ajuda se você NUNCA MAIS fazer uma pergunta para ele. Nossa, eu ainda tinha tantas perguntas… não quis nem pensar em quebrar a promessa de não perguntar mais coisas, nem quando pude. Este é meu save, e estou jogando há dezenas de horas nele! Não vou jogar tudo por água abaixo pra saciar minha curiosidade!!!

Existem tantas maldições a remover, tantos arcos para terminar… O Inimigo dá as caras e impõe tanto ímpeto quanto Puck. As fadas mostram suas reais faces como NPCs de videogame e começam a… repetir diálogos. Você pode até ir na sala onde as outras fadas escondem as que ficaram “obsoletas”, escondidas e fadadas a repetirem a última coisa que disseram para sempre. Você e eu, jogadores! Estamos fazendo o que sempre fizemos nos videogames. Os esgotando de tudo que têm. Quanto mais tempo passava ali, mais personagens iam embora. Eu também havia prometido pro Puck que ia sair da corte assim que tivesse as chaves necessárias para ir embora novamente.

Acabaram os spoilers. Mais ou menos. Spoilers semi ok talvez leves à frente.

Foi muito difícil para mim largar um jogo narrativo como estes com tanto ímpeto. Titanium Court requer sacrifícios não importa para qual lado você for, qual final pegar e quando. Você não só é impedido de fazer tudo num só save, como também é apressado pelo seu desconhecimento de como ele funciona.

Titanium Court análise

Para alguém que acompanha roguelikes contemporâneos, esta abordagem pode parecer bem estranha. Ela é! Este é um gênero — ou melhor, um molde — que maximiza rejogabilidade ao basear todos os momentos do jogo em randomizações que oferecem remixes inifinitos de elementos de gameplay. O design de sistemas reina sob qualquer design de fase que ainda é possível com tanta aleatoriedade. O roguelike já foi aplicado a quase todo gênero imaginável. Poxa, até o de puzzle. É um tipo de jogo que não necessariamente espera que você o termine, mas deixa com que o encaixe na sua rotina como um live service de multiplayer online: uma ou outra partidinha por dia.

Me incomodo bastante com a ubiquidade do roguelike, ainda mais nos que tentam misturar o molde com gêneros como o FPS que, para mim, funcionam muito melhor quando existem arenas ou fases feitas à mão. Amo muito experimentação, mas acredito que estas misturas de gênero não são sobre isso, mas sim sobre escopo: você pode jogar fora narrativas diretas e design de fases ou até qualquer semblante de ritmo ou progressão em troco de um jogo #viciante que algumas pessoas irão jogar por centenas de horas. É uma decisão de mercado e escopo para muitos desenvolvedores. Este não é o caso para todos roguelikes, mas é mais comum do que nunca.

Titanium Court, entre outros aspectos, joga uma luz na repetição eterna de um roguelike. O jogo deve, sim, acabar; seja por você ter atingido um de seus finais ou só ter parado de jogar quando ficou satisfeito. O jogo denota suas surpresas e diálogos como magia. Ela não é infinita, e você está ativamente a consumindo enquanto joga. É um romance sobre romantizar o seu tempo naquele mundo. A tragédia shakespeariana do fim de um videogame. O contrato social entre jogador e desenvolvedor em primeiro plano. O seu tempo realmente vai acabar. Até os chefes começam a sair de cena quando você resolve suas maldições. Deus, até o chefe final deixa o palco.

A única certeza é que você será o último a sair. Sem você, não existe show. Com você, ele já acabou.

Aproveite o máximo do que conseguir ver.

Titanium Court análise

Uma cópia gratuita de Titanium Court para PC foi concedida pela Fellow Traveller para análise no Recanto do Dragão.