Power Stone 2 é um experimento interessante (e nada demais)

No despertar do século 21, as pessoas estavam perdendo a confiança no início da era 3D como uma revolução nos videogames, e Estúdios Lendários buscando fortuna e glória procuravam pelo mundo um igualmente lendário Jogo de Luta com o poder de realizar qualquer sonho, e provar que a transição para os polígonos podia funcionar. Apesar dos esforços da Capcom para encontrar um sucessor ao seu catálogo de inovações, o que eles acharam foi meramente uma sombra do destino. Essa sombra é conhecida como “Power Stone 2”. Sem aviso, uma nuvem escura cobre o céu, então uma sombra gigante ameaça o planeta inteiro com um rugido que falha em estremecer a terra. Subitamente, um misterioso castelo voador esgueira-se do nada. Num piscar de olhos, somos todos forçados a fingir que nos importamos com o novo grande lançamento da Capcom. O que será de nós?

Bem-vindos ao mundo de Power Stone 2! A prova de que um início sólido pode não levar a um final perfeito! Bem, não é pra tanto, mas entendam a importância do efeito dramático. Esta sequência era uma inevitabilidade depois do sucesso crítico do primeiro Power Stone e da baixa performance do mesmo em renda. Parecia que ainda tinha o que fazer com a franquia e alavancar algum tipo de sucesso mágico que fizesse a Capcom se sentir menos pior com o desempenho meramente razoável que sua última tentativa conseguiu.

Para revelar ao público o potencial de Power Stone, a Capcom decidiu repaginar completamente a estrutura do jogo. As fases agora são como mini-aventuras, cheias de sequências de ação pouco relevantes para o combate, um modo de aventura RPG que se liga a um sistema de criação de itens, mais desses itens com um balanceamento pensado especialmente para eles, e combate bastante simplificado.

Emergency Escapes (até certo ponto), o botão de chute, as voadoras e o segundo golpe das Power Changes foram apagados em busca de lutas menos corpo-a-corpo e mais “filme”. Com menos opções ofensivas e defensivas, o jogador é forçado a abrir um caminho rumo à vitória com bombas, caixas, espadas, cetros mágicos e bazucas, ao invés de desvios perfeitos e combos.

Acredito que esse é um dos jogos mais difíceis de entender para mim. Eu joguei Power Stone 2 a minha vida toda e me diverti demais com ele. Joguei muito Power Stone 1 recentemente e não gostei tanto dele, mas vi um caminho a seguir. Voltei a jogar Power Stone 2 e comecei odiando de verdade, mas depois de umas semanas me forçando a jogar, passei a gostar dele pelos motivos que me fizeram odiá-lo pra início de conversa.

Esse vai ser um texto bem contraditório. Eu não acho que estava errada quando buscava escapar desse jogo e encontrar minha liberdade em outros títulos, mas também não acredito estar cega para os problemas dele quando comecei a vê-lo de outra forma. Power Stone 2 é uma aventura misteriosa, e eu só consigo apreciá-lo ao tirar proveito de suas inúmeras peripécias peculiares.

Começando pela parte ruim: Power Stone 1 não é um dos melhores jogos de luta de todos os tempos. Não é um dos melhores jogos de luta da Capcom. Nem ao menos é um dos melhores jogos de luta do ano em que foi lançado. Power Stone 1 é uma ideia, uma boa ideia, que precisava de cuidado para ser executada.

Olhando por esse ângulo, uma sequência é praticamente obrigatória. Revisitar o conceito talvez entregue ao mundo um jogo verdadeiramente incrível. Uma pena que Power Stone 2 joga o que fez seu antecessor especial no lixo.

O problema do primeiro jogo era as águas rasas que ele apresentava. Não tinha muito para onde subir em habilidade, e as partidas não eram muito justas ou divertidas depois de um tempo. Ainda assim, pareciam problemas fáceis de consertar! O engraçado é que PS2 fez o completo oposto. Não tem golpes o suficiente para diversificar a ofensiva? Vamos cortar o moveset pela metade que deve resolver. Sem manobras defensivas vira um jogo de quem ataca primeiro? Acho que precisamos piorar os desvios também. Itens são muito fortes? Deixamos eles mais polarizantes ainda, e de quebra as fases são compostas primariamente de hazards com menos telhados e interações únicas para explorar. Power Change deixa as partidas entediantes por ser quase invencível? Bem, e se as transformações darem mais dano nos Supers e recebessem um Normal a menos pra que você gaste menos tempo pensando e mais tempo gastando a forma em especiais?

Tudo parece ofensivo à ideia do primeiro jogo, como citar o mesmo argumento de novo com menos detalhe após todos já terem o rebatido. Ao menos, isso é o que parece. Vindo diretamente de Power Stone 1, entender e gostar do segundo é uma tarefa bem grande, mas não é impossível. Você só precisa mirar nos lugares certos!

Power Stone 2 é um jogo de party com toques de RPG. Todas as fases parecem cenários de um grande JRPG da era de ouro do gênero, as fases e itens parecem construídas para contar uma história, e as lutinhas acabam sendo encenações de um filme de ação épico, ao invés de uma expressão de habilidade com artes marciais, como era o primeiro jogo.

A precisão no fator “habilidade” está na sua capacidade de se adaptar aos ambientes em constante mudança. Isso tanto fala sobre os níveis indo de cenários estáticos para auto-scrollers, quanto da presença dos itens que é tão crucial para PS2.

Acredito que a raiz de toda boa experiência com esse jogo nasce do mesmo lugar — o Adventure Mode. Funciona da seguinte forma: você escolhe seu personagem e a primeira fase que vai jogar. Terminando ela, escolhe a próxima. Então, tem uma batalha de boss contra o PHARAOH WALKER, para te levar a mais uma fase normal até que, no fim, sua jornada acaba na sala do trono a fim de derrubar o Doutor Erode e fugir do castelo. O Arcade Mode, 1v1 ou com quatro jogadores, também segue essa ideia. A diferença do Adventure está em dois detalhes:

– Você só tem uma chance! Cuidado onde pisa, porque se cair, é um longo caminho de volta.

– Tudo que pegar fica com você! De espadas à cartas, comida ou armadilhas, tudo é seu!

A cada fase, o jogo vai te recompensar com mais dinheiro, e vencer Erode no final vai te dar um ITEM SECRETO. Se morrer, você leva todos os itens que adquiriu até então mas não pode prosseguir. Se for o campeão, continue! Veja até onde consegue chegar.

Ao coletar itens nessas jornadas, eles são guardados em uma espécie de inventário. No menu principal, você pode visitar a lojinha da Mel e não só comprar mais itens, mas combinar eles. Combinar esses objetos pode resultar em coisas completamente novas que, após serem criadas uma vez, vão começar a aparecer em todos os modos.

O interessante é que você não exatamente precisa gostar de usar os itens para apreciar esse sistema. É uma aventura, e toda tentativa no Adventure vai te dar alguma coisa legal pra combinar! Só ver os itens novos e encher sua lista é uma satisfação gigante, e fica mais legal quando eles começam a aparecer na jornada.

Focar em buscar esses itens também te faz usar eles mais, e explorar o caos de Power Stone. Sim, as mecânicas de combate foram simplificadas ao máximo e mais de metade das fases tem partes chatas com gimmicks irritantes, mas buscar e aprender a usar os itens… me fez me sentir uma criança de novo.

E eu acho que essa é a parte mais interessante e difícil de analisar nesse jogo. Por mais mecanicamente superficial que Power Stone 2 seja como um jogo de luta, eu me diverti bem mais do que achava que iria. Vencer combates baseados em sorte e apenas abusando de itens o máximo que eu posso me trouxe um sorriso no rosto, ainda que não houvesse nenhum desafio ou expressão de habilidade no que eu estava fazendo.

Eu tipicamente não acredito na ideia de desligar a cabeça pra se divertir, pois mesmo as obras consideradas burrinhas tem algo legal pra se tirar ao raciocinar sobre. Ver jogos por diferentes lentes com mente e coração ligadas me fez apreciar muito mais o meu gosto por videogames, e acabei de fato me divertindo e gostando de mais coisas (algumas que jamais imaginaria). Porém, as coisas que eu entendo sobre o gênero que Power Stone 2 se filia não me ajudaram ao entender ele. O final das partidas de PS2 é muito decidido por quem teve a sorte de achar o item melhor, ou quem não foi aleatoriamente acertado por armadilhas e, ainda assim, não consegui deixar de me sentir satisfeita ao vencer.

Eu achei que, quando criança, eu gostava de Power Stone 2 por não entender muito bem a complexidade dos jogos de luta e só querer uma diversão rápida. É fácil divertir uma criança! Mas não. Em 2026, Power Stone 2 estava me divertindo também. Acho que sempre vai aparecer uma obra pra te desafiar a largar esse falso senso de superioridade que a crítica oferece e interpretar de outra forma.

Ainda assim, Power Stone 2 tem um prazo de validade. Isso não é um problema para jogos singleplayer, e não há mal nenhum em deixar uma aventura acabar! Mas, para jogos de luta, esse não é o futuro que você espera. Depois de desbloquear todos os itens, personagens e fases, de jogar umas horas com amigos, Power Stone 2 perde seu brilho. Em um momento ou outro, os heróis de Power Stone precisam escapar do castelo.

E isso me deixa triste, porque PS1 estava tão perto de conseguir ser um clássico eterno como os outros jogos de luta da Capcom, tão profundos que são experienciados e explorados ao máximo por seus jogadores até os dias de hoje, mas PS2 decidiu tomar um rumo completamente diferente e a franquia morreu aqui. Power Stone não precisa jogar fora um dos seus lados para dar luz ao outro, ele pode ser ambos: uma brincadeira para crianças e jogadores pouco interessados no gênero, ou um poço sem fundo de histórias, amizades, rivalidades e um legado que só uma comunidade que busca explorar tudo que o jogo pode oferecer traz. Honestamente, uma história contada por eras e marcando as vidas de muitas pessoas de uma forma tão forte quanto Melee ou 3rd Strike fizeram, combina muito com a temática de Power Stone.

Apesar disso, tive muitos momentos bons e ruins com Power Stone 2 que não só me fazem lembrar da infância como também criam histórias que vou lembrar por um tempo. No entanto, a hora de matar ou morrer chegou e, ao destruir o monstro, também preciso fugir do castelo. Mas não desanimem agora — nossa jornada acabou de começar. Power Stone pode ter acabado, mas seu espírito continua. Se a Capcom não vai realizar nossos desejos, vamos procurar em outro lugar, pelo lendário tesouro que faz sonhos virarem realidade. Nós vamos subir o nível e ir muito mais alto do que um castelo entre as nuvens. Não perca o elevador, ou vai se arrepender! Boa noite!

IT’LL BE A GRAND BATTLE.