Etrange Overlord — doce revolta, doce vingança | Análise

Etrange Overlord — doce revolta, doce vingança | Análise

Etrange Overlord não precisou de muito para chamar minha atenção: após poucas imagens, decidi que precisava experimentar aquele colorido e encantador mundo tridimensional povoado por personagens com designs tão charmosos, ilustrados por Shinichiro Otsuka. A grande surpresa, no entanto, foi o quanto esse mesmo charme se transporta para o resto do jogo.

Etrange Overlord é um RPG que mistura um combate de ação muito simples — cada personagem possui apenas um ataque básico e um especial — com uma progressão de fases sustentada por mecânicas de gerenciamento de recursos. Nada de muito inovador, mas é o pouco necessário para sustentar seu conceito mesmo que bambeie aqui e ali com mecânicas que poderiam ser melhor aproveitadas.

Seja em sua terra natal, seja no inferno, a grande estrela é Étrange von Rosenburg, que se encontra no submundo após ser falsamente acusada e guilhotinada por matar o rei. Uma premissa muito próxima a dezenas de Isekais por aí e é esse tipo de história — além de diversos outros tropos de anime — que Etrange Overlord quer parodiar. Começa com a própria protagonista: seus cabelos pretos e vestido escarlate, uma brincadeira com a caricatura de vilã em obras do tipo.

Étrange sentada em um trono sob um holofote teatral.

Apesar de excêntrica, Étrange nada tem de vilã e é isso que o Inferno e seus moradores conhecem pouco a pouco de acordo com que se juntam a sua causa de escapar do inferno. É nesse meio tempo que a narrativa extrapola as paródias para entregar um texto cheio de comentários sociais, como o próprio Inferno que passa por um momento de instabilidade política e que a justiça na decisão de quem é condenado ou não está minada por ineficiência e erros de condenação.

Por isso, então, Étrange começa uma jornada de tomada de poder ao transformar inimigos em aliados — ou melhor, amigos. Ao atravessar o inferno, as fases são distribuídas em regiões e, em cada uma delas, podemos escolher usar quatro entre o elenco de mais de uma dezena de personagens, os quais são introduzidos de pouco em pouco durante a história, a qual está recheada de momentos musicais que são sempre divertidos, mas nunca tomam o holofote.

Todos se maravilham com a personalidade da protagonista (e seu amor por doces) e seguem seu comando ao formar um exército que pode ser distribuído nas regiões já exploradas para recolher recursos. Esses recursos, os quais também podem ser adquiridos completando fases ou explorando o overworld, são utilizados para melhorar as armas das personagens, cozinhar pratos que provém buffs para as batalhas e para aperfeiçoar os power ups. Esta é outra grande ênfase do jogo: a possibilidade de escolher quais power ups aparecem durante as fases.

Três demonios lado a lado. Cada um com uma cor (verde, vermelho ou azul) e formato (pequeno, esguio ou grande).

Enquanto isso, por meio de mini-eventos chamados de “side stories”, podemos acompanhar o que acontece no reino de onde veio Étrange e quem está por de trás de sua queda — um enredo bem novelesco… mesmo que esses antagonistas não tenham noção do tamanho do problema que criaram ao colocar a protagonista em uma situação propícia para uma revolta e posterior vingança.

Isso porque Étrange é uma personalidade magnética que encanta todos ao seu redor pelo seu poder, charme e uma moral inabalável. Isso vale tanto em relação aos outros personagens, quanto para o jogador. Quando ela está em tela numa cutscene, sempre há a garantia de um momento engraçado ou divertido, e é isso que consegue segurar um jogo inteiro que, apesar de ter uma quantidade razoável de mecânicas, não desenvolve nada com muita profundidade. Ou seja, na reta final do jogo, as chances de você já estar chateado com a repetição são razoáveis.

Entre os problemas que vejo, o principal está na forma como o combate se dá. Etrange Overlord parece ser um jogo multijogador, mas é um jogo de um único jogador — mesmo que ele tenha um modo bônus para jogar suas fases com amigos. Ou seja, durante os combates, você pode trocar entre os quatro personagens, mas a sensação é que eles são muito pouco eficientes quando estão por si, o que pode gerar situações de frustração em fases que você precisa freneticamente trocar de combatente para finalizar.

Automóvel se locomovendo pelo overworld. Nesse caso, um cenário desértico com construções arredondas azuis.

Um outro incômodo que tive é como o gerenciamento de recursos pede muito pouco do jogador, porque não é algo que parei para pensar na maior parte do tempo. Eu apenas deixava meus personagens em algumas regiões específicas e coletava os recursos sem fazer muitas considerações, e foi assim até o fim do jogo. No final, o que mais importava era evitar “revoltas”, que são momentos em que os inimigos tomam controle de alguma fase e produzem algum debuff para o jogador.

Felizmente, o jogo parece ter bastante consciência disso e a duração da sua história principal é de, no máximo, 20 horas. Um tempo que faz sentido para a narrativa contada e que não se estende para nenhuma bifurcação além da aventura de Étrange que é, como dito, a estrela do show. Isso não quer dizer que o resto do elenco é dispensável, porque vários deles têm ótimos momentos, mas mesmo estes momentos sempre estão condicionados a alguma peripécia ou fala da protagonista.

Talvez a única coisa que eu gostaria que fosse mais enfatizada pelo jogo fosse sua parte musical, porque não há muito disso para além dos breves momentos cantados e da tematização visual, o que acaba se tornando apenas mais um flavor das inúmeras paródias feitas durante a história. Mas fiquei satisfeito com um RPG de ação extremamente carismático que me rendeu boas risadas e momentos desafiadores na hora de lidar com suas fases.

Uma cópia gratuita de Etrange Overlord para PC foi concedida pela NIS America através do Keymailer para análise no Recanto do Dragão.