Na temporada de inverno de animes deste ano várias séries com novas ideias e conceitos mais experimentais foram lançados (como SK∞, Wonder Egg Priority, etc), e BURN THE WITCH entra de um jeito diferente nessa onda.

As ideias contidas nele não são excepcionalmente originais, mas sua estrutura não é comum. A sua primeira temporada possui apenas três episódios, mas não acaba a história, já que uma segunda temporada já foi confirmada em uma edição de 2020 da Shonen Jump.

Mais peculiar ainda é o anime não adaptar o início da história, pulando seu oneshot (um mangá de uma edição só) que introduz todos os personagens e contextualiza muito melhor o cenário e universo de BURN THE WITCH. Se você já viu o anime todo, recomendo ler esse oneshot para entender o seu início melhor.

Sendo uma adaptação do mangá de Tite Kubo (de BLEACH) e animado pelo estúdio Colorido (de Olhos de Gato), BURN THE WITCH é exibido exclusivamente pelo serviço de streaming de anime Crunchyroll.

AVISO! Esta análise possui spoilers de BURN THE WITCH!

BURN THE WITCH

A história

Os primeiros momentos do anime são já de cara bastante interessantes e mostram a dinâmica entre as protagonistas e os dragões da série. No anime, Noel Niihashi e Ninny Spangcole são duas bruxas agentes de Wing Bind, uma organização da Londres Reversa que controla e protege a presença de Dragões na região.

Londres Reversa? É, em BURN THE WITCH existe uma versão alternativa de Londres onde os Dragões são visíveis para os civis. Com essa condição o governo criou uma lei que condena qualquer humano que tocar em um Dragão à 100 anos de prisão ou à pena de morte, para a proteção tanto dos Dragões quanto dos humanos.

Esta lei pode parecer bem estúpida… e ela é. Ataques de Dragões são uma ocorrência bem corriqueira no universo de BURN THE WITCH, como evidenciado pela estatística mostrada no começo do primeiro episódio que explica que cerca de 70% das mortes de Londres estão ligadas à eles. Isso significa que é bem possível que uma grande quantidade de sobreviventes de ataques de Dragões são condenados à punições extremas sem serem realmente culpados, e não existe nenhuma motivação explícita por parte dos vilões do anime (que são os líderes de Wing Bind) para existir uma lei tão mal pensada que gera tantas mortes desnecessárias.

Isso fica ainda pior se você ler o oneshot, onde é revelado que existe um tipo de Dragão que consegue se disfarçar de humano, condenando todas as pessoas que ele tem contato sem elas nem saberem. A Wing Bind sabe da existência desse tipo de monstro mas ainda continua aplicando essa lei. Ah, é importante notar que apenas agentes da Wing Bind em si podem sequer interagir com eles.

Infelizmente é bem fácil ficar incomodado com esse aspecto, pois ele é usado múltiplas vezes para criar tensão entre os personagens humanos, então realmente impacta a história negativamente.

BURN THE WITCH

Mesmo assim, o resto da construção de mundo de BURN THE WITCH é bem sólido e apresenta tipos de magia variados e animados com glamour. Tanto a Noel quanto a Ninny têm estilos diferentes de conjurar feitiços e os usam de maneiras diferentes, às vezes até recorrendo a conjurações de maneira conjunta.

Ninny faz parte de uma banda na Londres comum e é bem hiperativa e confiante, enquanto Noel é mais quieta e direta ao ponto. A dinâmica entre as duas é aquela básica de uma dupla relutante, onde elas claramente são melhores amigas mas não querem admitir. Mesmo assim, a execução desse clichê é feita com o devido cuidado, tornando as cenas com as duas sempre notáveis e imprevisíveis, ainda mais sabendo que nem elas nem nenhum outro personagem têm muito tempo pra se desenvolver devido à curtíssima duração do anime, deixando muitas motivações ainda misteriosas.

O resto do elenco também brilha, com a exceção de Balgo Parks. Ele é basicamente um alívio cômico que recebe MUITO mais atenção do que deveria, e o pior é que todas as piadas com ele dependem da sua “paixão incondicional” por Noel, contando com clichês que beiram o assédio sexual e que são usados em muitos mangás shounen. Ao menos no anime de BURN THE WITCH essa sua característica é atenuada em comparação ao oneshot.

Tirando essa parte, Balgo possui boas ideias atreladas a seu personagem, já que ele é um Dragonclad, ou seja, é um dos poucos que pode interagir com dragões ao decorrer do anime sem ser afetado por aquela lei besta que eu citei antes. Dragonclad é alguém que tem uma ligação especial com Dragões, os atraindo constantemente. Esse é mais um aspecto do mundo do anime que não é aprofundado em sua primeira temporada, funcionando bem como um mistério a ser resolvido futuramente.

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A existência desse tipo de pessoa também tira um peso das costas dos dois personagens que não são agentes de Wing Bind do elenco principal, e ao mesmo tempo adiciona mais uma fonte de perigo para Ninny e Noel, já que Dragonclads atraem Dragões.

A última protagonista do anime é Macy Baljure, que se tornou uma Watcher (alguém que consegue ver Dragões na Londres normal) ao interagir com Balgo em uma coincidência no meio da rua. Ela faz parte da banda Cecile Die Twice, a mesma de Ninny. Macy é completamente apaixonada por Ninny e se torna uma Dragonclad no fim da primeira temporada.

Macy e sua paixão por Ninny

Ela acaba sendo a catalisadora do conflito principal e o clímax do anime ao começar a cuidar de Elly, uma Dragão que começa inofensiva, mas que começa a ficar mais e mais poderosa e amedrontadora conforme vai crescendo, até se tornar Cinderella. Em sua forma final de Cinderella, ela se torna extremamente perigosa e é basicamente o “boss final” da temporada, surpreendendo Macy, que pensou que ela era inofensiva. Sabendo que Macy cuidou dela por meses e tinha uma conexão muito forte com Elly (algo que é dado foco no segundo episódio), é um pouco desapontador saber que ela não reage de maneira apropriada quando sua Dragão de estimação é morta logo no final.

Ah, essa batalha é interessante. Nela, Ninny e Noel se unem com Bruno Bangnyfe, um dos vilões que fazem parte da Top of Horns, o conselho que manda em Wing Bind. O estilo dos três de combate brilha visualmente e continua entretendo do começo ao fim da luta, e os ataques lentos, mas extremamente poderosos de Cinderella mantém a tensão da batalha sempre alta. Infelizmente, nenhum dos três acaba dando o ataque final à Dragão que estava atacando a cidade, e quem termina a luta é Billy Banx, o comandante da dupla de protagonistas. Ele simplesmente usa uma magia com seus dedos a quilômetros de distância de Cinderella, de dentro da sede de Wing Bind, matando-a imediatamente.

Para o clímax de uma curta primeira temporada de um anime, essa decisão realmente me incomoda. Isso deixa um precedente de que não importa o que aconteça com Ninny e Noel, Billy pode salvá-las a qualquer momento, removendo completamente a satisfação de ver o trio inesperado lutando contra Cinderella.

Ao fim da luta, as protagonistas não ganham nada e a temporada se encerra bem repentinamente, mas com um enorme adendo logo em seus últimos segundos.

A revelação final (que também é feita no oneshot da mesma maneira, mesmo com ele se passando antes do anime) do enredo de BURN THE WITCH é que ele se passa no mesmo universo de BLEACH, ao mostrar Wing Bind como a Sociedade de Almas do Oeste. Só esta surpresa no final do anime já o torna muito mais interessante ao abrir um leque infinito de possibilidades futuras, já que tanto o conceito de bruxaria no formato de BURN THE WITCH quanto o de dragões não são diretamente explorados em BLEACH.

Ninny ameaçando Bruno

E a melhor parte da escrita em relação a isso é a quantidade de pequenos conceitos que são iguais à BLEACH, mas com nomes diferentes e funcionalidades levemente alteradas, me levando a acreditar que estas mudanças são conectadas à cultura de Londres, que com certeza é bem diferente da de Tokyo. Por isso a existência de conceitos europeus como a existência de Bruxas funcionam dessa maneira, o que é um belo toque de escrita de Tite Kubo.

Eu gostaria de me aprofundar mais nas conexões de BURN THE WITCH com BLEACH, mas eu nem assisti, nem o li. Mesmo assim, BURN THE WITCH é tão intrigante por si só que acabou me convencendo a dar uma olhada em BLEACH, algo que eu realmente não esperava saindo de um curto anime sobre Bruxas.

O audiovisual

O áudio

A paisagem sonora de BURN THE WITCH é bem detalhada, desde os sons ambientes que nunca atrapalham o diálogo até os de feitiços e dos Dragões que são apropriadamente mixados, ajudando a criar mais impacto nas cenas de ação do anime.

As vozes também encaixam bem em cada personagem do elenco e todas as performances são tão profissionais que é fácil se perder no mundo do anime.

A trilha sonora é absolutamente estelar. Existem incontáveis músicas que se destacam com alta energia e bom uso de mixing para enaltecê-la em partes importantes. As minhas favoritas pessoais foram “Re: scue” e “She Makes Me Special”.

Re: scue é usada bem no momento em que BURN THE WITCH começa a se tornar realmente interessante, e usa progressões de cordas que resgatam um tom de bruxaria, mas com sintetizadores modernos que demonstram elementos de Soft J-Rock com diversos toques eletrônicos. She Makes Me Special marca um dos momentos emocionais mais fortes do anime e seu uso de instrumentação clássica (violino, piano, entre outros) convém a melancolia da relação de Macy com Elly perfeitamente.

Confira a trilha sonora completa aqui:

O visual

BURN THE WITCH é lindo de se ver. Os designs de personagem são todos icônicos e mantém um estilo único, esbanjando personalidade e atitude (que é algo que todos eles têm bastante). As roupas de quase todos eles têm um ar de fashion moderno misturado com casual, algo que é removido completamente no elenco de vilões em troca de guarda roupas impráticos e opulentes. Mesmo com boa parte dos vilões tendo aparições rápidas, eles conseguem intrigar o suficiente para serem memoráveis e me fazerem ficar ansioso para vê-los em ação em futuras temporadas.

O estilo de arte é bem similar ao de BLEACH, mas com pequenas mudanças que dão um ar mais modernizado para as personagens. A tradução do estilo de desenho do mangá para o anime foi feita com muito cuidado, entregando uma experiência bem similar entre os dois quando o assunto é estilo.

BURN THE WITCH

As animações também são de qualidade, algo que eu particularmente não estava esperando, pois não conhecia muito bem o estúdio Colorido. O uso de 3D é moderado e não atrapalha a ação, que é onde o foco é posto na animação. Cada pequeno movimento é produzido com cautela e não foi poupado nenhum detalhe na hora de transmitir expressões faciais. É uma qualidade de anime de TV que não se vê com frequência.

O estilo!

E essa é uma das maiores qualidades de BURN THE WITCH, o seu puro estilo. É claramente um dos fortes de Tite Kubo como um escritor e desenhista, se mostrando aparente em todas as suas obras. Mesmo com alguns de seus problemas de construção de mundo e sua duração dolorosamente curta, BURN THE WITCH esbanja charme em seus designs de personagem, elementos de enredo, estilo de arte, ou seja, de todos os poros possíveis da obra. É bem difícil ficar entediado assistindo ele, pois cada momento é dado tanta atenção no quesito audiovisual que torna toda cena divertida.

BURN THE WITCH tem muito potencial em seu futuro como série, e conseguiu me convencer a acompanhar a história de BLEACH (que vai ganhar mais uma temporada em 2022) para ver como as duas se conectam e ter uma ideia melhor do contexto geral quando for assistir a segunda temporada do anime. Ele mostra seu valor como um dos animes mais interessantes da temporada de inverno de 2021, e mal posso esperar para ver mais dele.

Nota final para BURN THE WITCH
4.3Únicamente estiloso
História
Direção de arte
Animação
Trilha Sonora
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